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Laqueadura - Esterilização e Reversão

Estudo realizado durante oito anos, de 1996 a 2005, com quase 100 pacientes que procuraram o Hospital Universitário de Brasília (HUB) para fazer a reversão da laqueadura comprova que as mulheres fazem essa cirurgia muito jovens e acabam se arrependendo. Cerca de 47% delas se submeteram à esterilização na faixa de 20 a 25 anos e 35% entre 26 e 30 anos, auge da fertilidade. Porém, quando buscam a reversão, já estão no declínio de sua vida fértil – 44% tinham entre 31 e 35 anos e 25% tinham mais de 36 anos. Além disso, em ambas as decisões, a vontade do marido pesa muito mais do que o desejo da própria mulher.

Em geral, a busca por esse método acontece principalmente por falta de orientação nos serviços de saúde, segundo o médico-ginecologista Antônio Carlos Rodrigues da Cunha, autor da tese de doutorado Reflexão Bioética na Laqueadura Tubária em Mulheres com Desejo de Nova Gestação, defendida em março de 2005 na Cátedra da Unesco de Bioética, da Universidade de Brasília (UnB). Ao todo, 83% das mulheres entrevistadas não sabiam das dificuldades pelas quais poderiam passar se tentassem uma nova gravidez. A falta de informação fica mais patente porque 91% delas não assinaram termo de consentimento livre e esclarecido para fazer a laqueadura (documento que apresenta os riscos e as implicações do procedimento). Sem informação, essas mulheres tornam-se reféns de atitudes arbitrárias de profissionais. “É preciso haver discussões entre o casal e o profissional de saúde para que a decisão seja livre e autônoma”, ressalta o pesquisador.

O que é a laqueadura
É um método definitivo de contracepção, realizado pela obstrução da tuba, que liga os ovários ao útero. A cirurgia "amarra" ou secciona as trompas de Falópio (tuba), canais por onde o óvulo transita até o útero. Dessa forma, a cirurgia impede, de modo eficaz, a concepção porque o espermatozóide nunca chega ao óvulo para fecundá-lo. A laqueadura só é recomendável para mulheres com problemas de saúde, tais como diabetes descompensada, histórico de eclampsia e pressão alta.

Reversão da laqueadura
É um procedimento mais complexo e poucos serviços do SUS o oferecem. Por meio de microcirurgia, parte da tuba uterina que foi laqueada é retirada e as duas partes restantes são religadas com agulhas e fios extremamente delicados.

Campeão mundial em laqueaduras
O Brasil, segundo o doutor em Bioética, tem o maior índice de laqueaduras do mundo, com 40% das mulheres em idade reprodutiva esterilizadas. Nos Estados Unidos, esse índice é de 20% e na França, de 6 %. Para o ginecologista, baixar esses índices depende principalmente de investir na oferta contínua pela rede pública de métodos anticoncepcionais e orientações incisivas dos serviços de planejamento familiar.

Ao final da pesquisa, de 98 mulheres que gostariam de ter outros filhos, apenas oito conseguiram dar à luz. “Esses dados mostram que a laqueadura é um procedimento definitivo e sua reversão tem apenas 50% de chances de sucesso. “Antes de pensar nesse método é preciso buscar outros procedimentos menos agressivos como a pílula, o DIU ou os anticoncepcionais injetáveis”, aconselha Cunha. Com isso, o Estado também ganha, pois não precisa pagar duas cirurgias, a laqueadura e a reversão. A laqueadura sai em média R$ 266,41 para o SUS. Mas os custos dessa operação aumentam para cerca de R$ 2 mil quando são considerados gastos com medicação, anestesias e internação. A reversão que consta na tabela do SUS como salpingoplastia sai por R$ 289,71 e, somando os outros custos, pode chegar a R$ 5 mil. A fertilização in vitro, realizada em alguns hospitais da rede pública pode, custar R$ 10 mil.

O médico alerta ainda que qualquer mulher com mais de 25 anos ou dois filhos pode passar pela laqueadura.”É uma legislação muito permissiva na hora de fazer a laqueadura, mas quando elas querem engravidar de novo falta assistência do Estado”, critica Cunha. Para ele, a falta de legislação específica para a reprodução assistida – procedimento que pode auxiliar as mulheres que têm mais dificuldade em engravidar – deixa as pacientes desamparadas.

Novo Relacionamento
Entre as mulheres que Cunha acompanhou em seu consultório no HUB, o principal motivo que ocasionou a busca pela reversão da esterilização foi o novo relacionamento, já que 80% das pacientes tinham se casado novamente. Mas 8% citaram também o crescimento dos filhos e 6% a morte de um deles. No momento em que procuraram a reversão, essas mulheres também apresentaram nível educacional mais alto e melhor situação financeira (veja quadro abaixo).

Por outro lado, 48% das entrevistadas pensavam, antes de fazer a laqueadura, que sua família já estava completa. Outras citaram como motivo para passar pela cirurgia de esterilização a baixa renda familiar (26%). Nessa época, elas também tinham situação financeira menos favorável e nível educacional menor.

QUEM DECIDE – Dado que chama a atenção na pesquisa é o fato de apenas 3% das mulheres terem sido responsáveis pela decisão de passar pela esterilização – 32% delas disseram que a decisão partiu do companheiro e 50% afirmaram que o casal decidiu junto pela cirurgia. “Os percentuais demonstram uma fragilidade da autonomia das mulheres”, diz Cunha. Além disso, no momento da reversão, 88% dos novos companheiros não tinham filhos. “A busca pela reversão é também mais uma vontade de agradar o companheiro”, conclui o médico. Ou seja, o corpo é da mulher, mas a decisão do que fazer com ele é do outro.



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Créditos:
ACS - Assessoria de Comunicação Social da UnB
Dr. Antônio Carlos Rodrigues da Cunha é médico ginecologista do Hospital Universitário de Brasília (HUB) e professor da Faculdade de Medicina da UnB. Graduado pela Universidade Federal de Uberlândia, é mestre e doutor em Ciências da Saúde na linha de pesquisa em Bioética pela Universidade de Brasília (UnB) e tem 20 anos de experiência em planejamento familiar.
Doutor Antônio Carlos Rodrigues da Cunha pelo e-mail acrc@unb.br

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