A Conquista de Big Sur
por Rodolfo Lucena
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Cheguei a ficar com os olhos molhados, mas correr, que é bom, nada. Caminhando no meio da multidão, que, aos poucos, se movimentava, levei mais de um minuto até passar pela faixa de largada e só então comecei a dar passadas que imitavam alguém tentando trotar.
A cada milha, indicada por marcos na forma de violoncelos gigantes de madeira, um voluntário gritava o tempo transcorrido e outro informava a média por milha, informando o tempo total previsto para aquela média. Lá pela quarta, a minha já estava em menos de dez minutos por milha (6min15/km). Haja abastecimento! Começa com água, depois isotônico, a seguir frutas e por fim esponja molhada para jogar água na cabeça e nas costas. Montes de latas de lixo para garantir que o mínimo possível vá parar no chão. Uns metros à frente, uma bateria de banheiros. O único incômodo era o vento frio. Mas, àquela altura, eu, ainda bem forte e descansado, não sentia muito.
Começou a primeira subida mais forte. A paisagem ficou mais selvagem, as encostas da montanha já passavam a ser escarpas, as ondas espumavam nas rochas. Logo deu para ver o que vinha pela frente: lá longe estava o caminho que levaria ao Hurricane Point. Antes, tinha de subir mais um pouco e depois rolar lomba abaixo, dando uma boa acelerada, mas sem perder o controle. Cheguei ao ponto mais baixo, a cerca de 20 metros acima do nível do mar, e comecei a subir. Passei a décima milha (km 16) com 1h32, já no passo que seguiria mantendo quase ao longo de toda a prova. Os americanos podem falar as barbaridades que quiserem daquele morro -e é um senhor morro, como mais de duas Brigadeiros empilhadas-, mas ele não mata ninguém, ou pelo menos ninguém que tenha treinado com afinco e se jogue para manter o ritmo. Foi o que fiz, ainda parando para mais umas fotos. Quando vi, meus amigos, estava no tal Hurricane Point. Dei um berrão, daqueles bons, em português: "Vambora pessoal, que agora é só lomba abaixo!". Claro que eu mesmo estava me enrolando. Bastava ver a altimetria para saber. Mas resolvi seguir no "me engana que eu gosto" e fiz as milhas mais legais da prova, do ponto de vista pessoal, até lá pela 16, quando finalmente encostei na previsão de chegada em quatro horas -o que era muito melhor do que eu imaginava (minha estimativa era terminar em 4h15, talvez 4h20, considerando que tinha feito 3h53 em Porto Alegre, no ano 2000, na minha segunda maratona).
Mas na milha 18 dei uma fraquejada. O caminho era mais ou menos plano até a milha 20 (32 km), com algumas inclinações, uma ou outra lombada. Mas vinha o vento, agora mais poderoso. Numa curva, empurrava pelo lado. Quando soprava de frente, parecia me segurar. Uma baixinha que eu tinha deixado para trás voltou a me superar, um outro sujeito me passou também faltando 500 metros, lá na frente eu via uma garota de camiseta laranja em que estava escrito "26.2 Dream a little, sweat a little" (Sonhe um pouco, sue um pouco). Ela havia me passado algumas vezes desde a milha 16, eu tinha dado o troco outras tantas. Fui! Passei a baixinha, a outra, o cara de calção azul, estava entrando no funil, um fiscal encaminhou a garota de camisa laranja prum lado, fui pro outro, cheguei!
4h02min11 marcou o relógio oficial. 4h01min16 foi o meu tempo para as 26,2 milhas.
E no final ainda vi a bandeira brasileira tremulando ao lado das de outros 20 países. Ela estava lá por mim, fui o único brasileiro na prova. PS1: Depois de publicado este relato na revista "Contra-Relógio", recebi e-mail de Ewaldo Russo, de São Paulo, contando que ele também participou da maratona de Big Sur, tendo completado o percurso em 4h34. Então a bandeira do Brasil estava lá por nós, o que não diminui em nada a emoção que senti.
Registro que a informação de que eu era o único brasileiro foi passada por e-mail pelo diretor da prova, Wally Kastner.
Crédito: |
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