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A Eleonora, minha digníssima e amantíssima esposa, estreou nas corridas. E debutou em uma prova muito difícil, com vários fatores adversos, a começar pela altitude (1.600 metros), o ar mais rarefeito tornando a respiração mais complicada, ofegante... E a continuar pelo percurso, quatro quilômetros em diferentes terrenos (grama, terra, barro,
areia fofa, asfalto), cheios de altos (muito altos, vários bem íngremes) e baixos (que não ajudavam muito, pois tínhamos de reduzir para evitar tombos).
Foi a última etapa do circuito Adidas Trail Running, realizado em Campos do Jordão em 15 de junho de 2001, um domingo frio, mas ensolarado. A prova tinha um total de oito quilômetros, mas corremos em dupla, Eleonora e eu, na famosa equipe Casal
Couple: Ativar!, também conhecida como Lucenas em Ação.
As tensões ficaram todas no dia anterior. Na hora, quando íamos começar a alongar, o diretor da prova disse que tudo ia atrasar um pouquinho. Então deitamos na grama e até um ronquinho tiramos.
A prova começou às 11h30, Eleonora foi a primeira a correr. Lá do fundo do batalhão saiu ela, para enfrentar logo de cara a primeira de uma série de lombas. Decidiu manter a passada firme, mas chegou ao alto e viu que tinha mais subida ainda. Teve de respirar fundo, baixar a rotação, o jeito foi caminhar um pouco até as coisas se acalmarem.
E assim foi tocando, entre caminhadas e corridinhas traçou seu caminho pelas montanhas.
Eu a esperava em uma curva, pouco antes do km 3, e ia ficando cada vez mais nervoso e preocupado. O tempo passava, o sol subia, os corredores passavam suados, a cara sofrida. Logo com uns dez minutos de corrida, um queniano, respirando todo desencontrado, abandonou o barco reclamando dos morros. Era Paul Rotich, que tinha vencido a etapa anterior, no Rio de Janeiro. Para justificar o forfait, disse que estava meio gripado. Aí eu quase chorei, pensando em onde tinha deixado a Eleonora correr.
O primeiro corredor passou pela segunda vez pelo ponto, já estava em sua volta final, e da Eleonora, nada. Perguntei para um e outro se tinham visto uma moça com a camiseta do Grêmio, e os tontos só tinham visto pó na estrada. Uma mulher finalmente falou que ela estava lá atrás.
Acalmei e esperei. Ela aportou na curva passando os 29’, cruzou por mim vermelhinha, suadinha, com algo em torno de 31‘, eu superpreocupado, fazendo tudo errado, incentivando e oferecendo para pegar a braçadeira, para ela ir descansar.
Que nada! Quando sugeri de novo que ela me entregasse a braçadeira, ela gritou: ‘Vai lá para o posto de troca!’ e seguiu no seu ritmo suado, rosto avermelhado.
Eu sorri, meio chorei, vi que, se ela estava com forças para brigar comigo, ela também teria forças para seguir pelos 900 metros que faltavam, uma última subida forte, das tantas já enfrentadas, e então uma descida, uma curva acentuada para a esquerda e lá estaria eu.
Ela chegou trotando, eu a vi lá longe, braço erguido, já tirando a braçadeira, pronta para fazer a entrega. Chegou com 39’10, na frente de várias duplas, nem sei se consciente de que, apesar de suas previsões, não era a última. Ela foi passando a braçadeira, não queria perder tempo, mas eu ainda parei para um beijo suado e lhe entreguei a mochila e a câmera.
Fui embora pelos morros acima, ver se ainda encontrava corredores. Eles estavam por lá, aos montes. Fui passando quem dava, ofegante também, forçando a barra um pouco. Logo a altitude cobrou seu preço e tive que reduzir. No morro que levava à marca dos 2 km cheguei a caminhar por alguns metros, aproveitando a água ali servida.
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Fui embora. Quando cheguei à curva onde eu havia esperado a Eleonora, perto dos 3 km, e não a vi, fiquei desesperado -durante todo o percurso, eu só vinha pensando se ela tinha ficado bem. Passei por uma ambulância, chequei se ela não estava lá.
Que nada. Ela ficara esperando na marca dos 3 km, para fazer uma foto de frente, bem legal. Estava ótima, ainda vermelha, ainda cansada, mas de pé, falando para eu correr.
Lá fui eu, buscando melhorar algumas posições no morro e mandando pau na descida para terminar com cinco segundos abaixo da hora. Ê beleza!
Nós ficamos lá no fim, mas não fomos os últimos, nem a Eleonora, nem eu, e muito menos a nossa dupla. No total, deixamos para trás mais de 20.
E a Eleonora festejou sua primeira medalha corrida.
Fim
Créditos:
Texto e foto copyright © 2002 por Rodolfo
Lucena.
Veja fotos da estréia de minha esposa em corridas e outros relatos no site:
www.geocities.com/rodolfolucena
Rodolfo Lucena é editor do blog +
corrida e autor do livro Maratonando.
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