Copacabana Runners

Maratona do Fogo - Dourados MS, 2003
por
José Carlos Angst

Conheça um pouco da não muito conhecida Maratona do Fogo, em Dourados MS, pelo relato de José Carlos Angst que teve a sua primeira participação na distância.


Pela janela eu vejo a paisagem do centro-oeste brasileiro, cerrado, gado, muita área de plantação, o vigor do verde irrigado pela chuva e o sol abundante desta época do ano. É Sábado, véspera da Maratona do Fogo, estou no ônibus a caminho de Dourados, a caminho da minha primeira maratona, em casa o único interessado em corridas sou eu, portanto, viajo só.

Já em Dourados, a minha primeira providência foi retirar o kit, fiz minha inscrição via fax e carrego comigo o recibo de depósito bancário (guardado há cinco meses e quase ilegível - a prova teve a data de realização transferida de julho para novembro). Da estação rodoviária até o estádio Douradão, resolvi experimentar, fui de moto-táxi, ando diariamente de moto e confesso que não foi uma boa idéia, quando estou pilotando fico muito mais a vontade.

No estádio, horário próximo ao meio dia e pouco movimento, comecei a procurar e logo vi uma grande faixa com a identificação do local da entrega dos números(sim números, o kit era o número e quatro alfinetes dourados, gostei dos alfinetes!), fui atendido prontamente por uma moça simpática, recebi o número, a informação do novo horário da largada (7:00hs) e desejos de uma boa corrida. 

Tudo o que eu precisava fazer para correr a maratona já estava feito. Hora do almoço, comecei a procurar um restaurante com a intenção de comer massas, acabei encontrando um Self-Service com comida caseira, escolhi massa, carne de frango e salada, regado a coca-cola.

As horas mais entediantes que passei em Dourados foram durante a tarde, depois do almoço fui para o hotel, resolvi não sair, já conheço a cidade, já estive na cidade algumas vezes a trabalho. Dourados é uma cidade com a economia voltada à pecuária e agricultura, cercada por grandes plantações de soja e outros cereais, o porte é de cidade média. No hotel assisti um filme na TV a cabo, acompanhei os telejornais da cidade e é claro as notícias, poucas, da maratona. No jantar novamente massas, a organização da maratona não realiza jantar de massas, para as pessoas de outras cidades a única coisa oferecida foi alojamento (deve-se levar a roupa de cama), o meu jantar foi em um restaurante a duas quadras do hotel. De volta ao hotel, solicitei ao atendente o serviço despertador para às 5:30hs e, um táxi às 6:00hs. Consegui dormir por volta das 11:00hs.

Na manhã seguinte, tudo certo, despertador, táxi, e eu novamente em frente ao estádio Douradão. Já sai do hotel vestido para a corrida, no estádio foi só deixar minha bagagem no guarda volume e observar o que acontece antes de uma maratona. Pensei que estivesse chegado muito cedo, poucas pessoas no local, arrumei um lugar para sentar, tinha resolvido aquecer apenas meia hora antes da largada, até lá esperar. Logo outros corredores começaram a chegar. Conversando com um deles fiquei sabendo o porque do pouco movimento, atletas inscritos na prova eram somente 89.

Pouco antes da largada procurei lembrar das dicas do Miguel, do fórum Copacabanarunners, pretendia seguí-las durante a prova. 

Na largada, tiro, dedo no cronômetro e "ritmo confortável" , resolvi manter o mesmo ritmo que costumo fazer em um treino leve, o percurso é cerca de 30% na rodovia e 70% atravessando alguns bairros da próximos ao centro. 

Não acreditei! Mesmo depois de ter ido duas vezes ao banheiro, uma antes do aquecimento e outra depois, lá pelo km 7 tive que sair da rodovia e buscar o mato, tudo bem, gastei pouco tempo.

Na minha frente corriam dois atletas que já tinha visto correndo em Campo Grande, vi que o ritmo deles era muito próximo de 5 min/km, resolvi segui-los a uma distância de 100m, alguns quilômetros à frente estávamos correndo lado a lado, um deles me perguntou se o meu objetivo era, também, terminar abaixo de 3:30hs, falei que era a minha primeira maratona e que não sabia o que poderia fazer. 

Passamos a meia-maratona (primeira volta) em 1:47hs, já estávamos em um grupo de seis corredores, a partir daí a maioria começou a aumentar o ritmo e foi se distanciando, fiz um check-up no meu corpo e percebi que estava quase tudo em ordem, parei rapidamente para ajustar o cadarço do tênis que estava machucando a parte de cima do meu pé e resolvi aumentar um pouco o ritmo para melhorar o tempo na segunda metade, no km 25 o primeiro líquido diferente de água, Energil gelado!, estava cansado, fiquei mais otimista, no km 30, em um posto de água, não deu para continuar a correr, tinha forçado demais para um principiante, comecei a caminhar.

Por volta do km 32 fui ultrapassado por um dos atletas que eu acompanhava na marca da meia-maratona, perguntou-me se tinha acontecido algum problema, se eu estava machucado, respondi que estava só cansado, agradeci e falei que ele estava indo bem. Caminhei-trotei sozinho durante vários quilômetros, 89 corredores em uma maratona é realmente muito pouco, atravessando as ruas dos bairros percebi o carro de apoio recolhendo alguns atletas que tiveram dificuldade em continuar na prova, deu uma vontade grande de me juntar a eles.

Já não estava acompanhando bem a quilometragem, sabia que não faltavam muitos quilômetros para a chegada quando passou por mim, "a galope", um atleta de cerca de sessenta anos, olhei para a calçada e entendi a sua maneira jocosa de correr, duas crianças sorrindo, olhei o seu rosto e percebi que ele também sorria. Foi o estímulo que eu precisava para continuar. Nos quilômetros seguintes fui acompanhando o atleta que havia me ultrapassado, estava me aproximando da chegada e também do meu "adversário" quando percebi que não queria ultrapassá-lo(considerando isso uma possibilidade), afinal ele foi o meu estímulo e a esta altura eu estou contente em terminar minha primeira maratona.

Passei a linha de chegada após 4hs29min, recebi a medalha, para minha surpresa, a medalha já tinha a classificação impressa, 40° lugar do geral.

No estádio, horário próximo ao meio dia e pouco movimento, domingo, estou me preparando para a viagem de volta, na minha bagagem vai alguma coisa a mais além da medalha de participação, alguma coisa com vários ingredientes: frustração, orgulho, resignação, satisfação, solidariedade e, um gostinho irresistível de "quero mais".



Créditos:
Texto copyright © 2004 por José Carlos Angst

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