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Alguém disse, certa vez, que não se pode passar por esta vida sem ter tido
um filho, plantado uma árvore e escrito um livro. Para os que gostam de
correr e escolheram a corrida como esporte, eu acrescentaria: não se pode
deixar de participar da Maratona de Nova Iorque. Este ano eu tive o
privilégio de viver essa experiência. No dia 2 de novembro corri "A
Maratona".
Foi meu objetivo para 2003. Uma promessa que fiz na virada
do ano, enquanto assistia à queima de fogos na beira da praia, em Maceió, com minha família
reunida. Prometi a mim mesma que eu iria correr uma maratona e pedi, com
muita fé, força, coragem e determinação para levar este plano adiante.
Representava um grande desafio, sobretudo levando-se em conta o fato de que
fui fumante por 20 anos e decidi abandonar o cigarro há pouco mais de dois.
Aliás, parar de fumar foi o que me levou às corridas. Comecei a trabalhar para concretizar meu objetivo. Minha meta era completar
o percurso de 42 km, mas ao mesmo tempo não queria arriscar minha saúde em
uma aventura irresponsável. Por isso me preparei. Procurei a orientação de
um profissional, Rogério Aviani, professor da academia Companhia Atlhética,
e segui uma planilha de treinamento. Também fiz um trabalho muscular
supervisionado pelos professores Carlos Magno e Rodrigo, e modifiquei meus
hábitos alimentares, seguindo um cardápio balanceado indicado pelo
nutricionista Léo.
Reconheço que não foi tarefa fácil. É preciso muita dedicação e força de
vontade, principalmente quando se tem que conciliar tantas tarefas: de mãe,
professora, servidora pública, dona de casa, motorista, estudante e por aí
vai. Arrumar tempo para ser também atleta é um tanto quanto complicado.
Mesmo assim, eu fui persistente. Treinos na chuva, no frio, debaixo de um
calor escaldante, enfrentando o clima seco da cidade... nada me fez
desistir. E o resultado não poderia ter sido mais compensador. Conclui a
prova em 4h34.
Uma prova marcada de emoção. Vi cegos, pessoas com perna mecânica, filhos
prestando homenagem aos pais recém-falecidos, pais agradecendo pela cura de
filhos, marido pedindo pela saúde da esposa, casais já de cabelos brancos
fazendo o percurso de mãos dadas. Muitas vezes meus olhos se encheram de
lágrimas e meus batimentos cardíacos se aceleraram.
Tudo começa na largada, ao som de New York, New York. A entrada na Primeira
Avenida é algo difícil de descrever. Milhares de pessoas na rua, de um lado
e do outro, com bandeiras, faixas, cartazes, gritando e incentivando os
atletas como se fossem parentes íntimos. E durante todo o percurso não é
diferente. Crianças ficam com o bracinho esticado e vibram quando você toca
de leve em suas mãos. Recebi um lenço de uma delas para limpar o suor do
rosto e senti-lhe a felicidade por ter sido útil ajudando alguém. Nem
consegui agradecer porque minha voz não saiu.
Diversas bandas tocam ritmos variados pelo percurso. Vi algumas bandeiras do
Brasil e me arrependi profundamente de não ter levado nada que me
identificasse como brasileira. O certo é que ver uma bandeira brasileira fez
o coração bater mais forte, muito mais.
A entrada no Central Park é o máximo. O som parece que se amplifica e começa
uma contagem regressiva de milhas e quilômetros. Na minha mente eu escutava
o "Tema da Vitória", que tantas vezes ouvi nas vitórias do Sena na Fórmula
1.
A sensação de cruzar a linha de chegada é indescritível. Um misto de dever
cumprido, euforia, agradecimento, cansaço, vontade de chorar, de rir, um
quase não acreditar que fora possível, que conseguira, que todo o esforço
valera a pena. É fantástico! É espetacular! É lindo! Sinto um arrepio no
corpo a cada vez que me lembro dessas cenas.
A prova em si é o ápice, mas a cidade começa a viver a Maratona na semana
que a antecede. Já é possível sentir o clima de festa ao desembarcar no
aeroporto. Desde ali muitos já te desejam boa sorte. E preciso tirar o
chapéu à organização - sem dúvida, nota 10.
Há uma feira cheia de novidades e movimentadíssima. A Corrida da Amizade,
que se realiza no sábado, e tem sua largada na frente do prédio da ONU,
reúne pessoas de todas as partes do mundo, muitas vestidas com trajes
típicos e cheias de euforia.
Não posso deixar de dizer que, nessa minha estréia, tive a felicidade de
contar com um grupo de pessoas muito especiais: Margaret, minha grande
companheira, com quem dividi o quarto, os medos e as ansiedades que
antecederam a corrida e também a felicidade, a alegria e a emoção da
chegada. Ivo e a esposa Elisa, casal animado e muito atencioso. Jorge e a
esposa Gisela, sempre muito simpáticos. E o presidente do
CORDF, Adeilton, grande líder, em sua sétima participação que, além de dicas tão importantes,
nos levou a percorrer os quatro cantos de Nova Iorque, cidade que parece não
dormir, cheia de contrates e surpresas.
Claro que tivemos alguns contratempos, fatos, situações e reações
inesperadas, mas nada que não possa ser superado, esquecido, deixado para
trás, ao longo daqueles 42 km. Coisas muito pequenas, se comparadas à emoção
vivida naquele dia 2 de novembro - que jamais esquecerei e que estará
presente eternamente em minha memória.
Crédito:
Copyright © 2004 por
Sylvia de Albuquerque Carvalho
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