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Alongamento… Pernas, coxas, panturrilhas, coluna... Alongar é
absolutamente necessário, principalmente antes de uma corrida longa como esta Meia Maratona. Eu, então, estava ali, com o pessoal da academia, atrás da
multidão de 12 mil que começavam a se comprimir para mais perto da linha de largada. Praia de São Conrado, nove e meia da manhã e o sol brilhava já for-te sobre nossas cabeças. Fui me posicionando mais à frente, tentando me infiltrar pelo maciço de gente...
Hora da largada, buzina soando... Largamos... Ou melhor, continuamos
parados sem poder avançar até que os milhares à nossa frente pudessem de fato iniciar a se movimentar lentamente. Aos poucos, pude andar bem devagarzinho, aumentando as passadas até realmente atingir um trote de corrida. Somente
cruzei o tapete da largada uns 10 minutos após...
A subida da avenida Niemeyer forçava logo no início da prova as explosões energéticas musculares. Esta avenida é uma armadilha para os afoitos. Segui num ritmo mais lento. O objetivo era chegar até o Leblon como se estivesse começando ali a correr. Além do mais, a densidade de pessoas era muito grande, impedindo que se desenvolvesse um ritmo mais acelerado. Diversas vezes precisei pular de um lado para o outro em zigue-zague a fim de não colidir com outros que se amontoavam inesperadamente ou corri diagonal-mente buscando raros espaços vazios. Por algumas vezes, saltei quase
como um bailarino evitando trombadas certeiras...
A alegria vibrante dos que corriam, logo era reforçada pelos gritos
empolgantes dos moradores do Vidigal que acordaram aquela manhã de domingo para admirar o evento de corredores... Bela paisagem... Mar, horizonte, ilhas distantes, tempo bom... Eu, correndo, era uma gota no caudaloso rio de pessoas que fluía à beira do penhasco...
Chegando ao Leblon, o primeiro gole d'água. Na mesma hora, pensei:
quantos goles ainda darei até completar os 21 km... Hidratar é fundamental.
Porém resolvi não exagerar na água desta vez, lembrando da primeira prova longa que corri. Eu tinha bebido tanta água que minha bexiga havia me
obrigado a uma parada estratégica atrás de uma moita em Botafogo...
É... Eu estava me sentindo muito bem, porém percebi, pelo cronômetro, que não tinha conseguido desenvolver ainda minha velocidade ideal para a prova. Procurei acelerar um pouco, mas sem forçar muito. O Ribas havia me falado que a prova "só iria começar mesmo" somente no Aterro do Flamengo,
quando faltassem uns 10 km... Seria ali um marco para reconhecer se seria possível chegar inteiro ou não ao final... Melhor poupar energias ...
Algumas nuvens, por vezes, amainavam o calor, mas logo o sol reaparecia para dar o ar de sua graça - ele apareceu festeira ou ironicamente justo nesse dia e somente pela manhã! Praga do Paulinho que dizia uns dias antes: "se estiver chovendo e frio a semana toda, não adianta se animar, pois no dia da prova mesmo, sempre faz calor"...
Ipanema ? OK. Copacabana ? Talvez. Aterro ? Não sei... Pensava enquanto chegava às imediações do Arpoador. A prova é longa, lembro que preciso guardar energia para o final. Estou com sede. Vou pegar mais água no próximo posto de hidratação...
Apanhar um copo d'água enquanto se está correndo, pode parecer uma tarefa simples, mas se você encontra uma multidão de desesperados pela frente como se estivessem prestes a morrer de sede num deserto escaldante, então você pode assistir a cenas até certo ponto bastante comoventes... Amontoados buscavam um copinho d'água que ficavam à disposição dos participantes sobre as bancadas improvisadas. Com o copo de água mineral na mão, bastava empurrar o polegar sobre o lacre de papel alumínio para furá-lo. Cuidado especial era necessário nos próximos metros de pista que, cobertos de copos plásticos pisoteados, representavam perigo de escorregões...
Havia muitos postos de água, porém poucos de Gatorade, líquido importante para maratonistas, pois além de água, repõe sais minerais fundamentais para o equilíbrio do corpo... Só que ao invés de virem em práticos recipientes lacrados como os de água, eram servidos em copos de papel comuns, abertos, sendo que estes precisavam ser enchidos via torneirinhas pelo pessoal de apoio...
Imagina uma fila de sedentos no meio de uma maratona... Tentei umas três, quatro, cinco vezes pegar o meu copo, mas nessa hora, não havia mais um respingo de educação... Como animais, todos reclamavam para si o direito de um gole da bebida salvadora que pudesse apaziguar aquela luta...
Pior seria, quando finalmente, de posse de meu copo, constatei que se
tratava de uma arte milenar o fato de conseguir correr e beber ao mesmo tempo num copo aberto. Conforme eu corria, o líquido pulava dentro do recipiente relutando ser sorvido a qualquer custo, me causando engasgos ridículos.
Tive receio de vomitar. Não sabia se deveria parar um pouco para tossir e
aliviar aquela agonia ou se continuava correndo para não perder tempo. Percebi que curiosos me olhavam com certa exclamação, provavelmente devido ao meu desespero. Eu imaginava o pensamento dos que assistiam perplexos àquele insólito episódio: "... coitado, aquele leva mesmo a sério essa
corrida... "
Depois de Copacabana, no primeiro túnel, senti uma pequena fisgada na base da coluna.
Imediatamente resolvi parar para 30 segundos de alongamento. Era melhor "perder" um tempinho do que não completar a prova. Dito e feito: não voltei mais a sentir nada. Santo
Alongamento...
Entrando no Aterro, pensei: é agora que começa... Seria ótimo se fosse
verdade, porém minha pulsação revelava o meu cansaço. Eu tinha conseguido mantê-la até ali em torno de uns 170 batimentos por minuto. Entretanto,
naquele trecho, vi o meu monitor cardíaco registrar 178 bpm. O que fazer?
Pensei. Reduzir a marcha para garantir a chegada? Sim, chegar era meu
objetivo.
Na mesma hora, lembrei que felizmente havia guardado, um envelope de
Exceed, composto energético especial para atletas. Alguém o havia me dado um pouco antes da corrida e eu o colocara no pequeno bolso interno do meu calção. Rasquei o envelopinho com os
dentes
e experimentei a primeira
go-ada... Arghhh... Horrível... Preciso de água urgente. Desta vez não só pela sede, mas principalmente para me livrar daquele gosto super doce de melado com groselha...
Impressionantemente, constatei que minha pulsação havia recuado para 172 bpm. Bebidinha boa essa, reavaliava eu aquela experiência alimentar, já não a achando tão repugnante assim... Se eu tivesse mais um outro
envelopinho...
Avistei o pessoal da organização já na chegada, porém eles estavam na
outra pista do aterro. Eu ainda precisava correr até o centro da cidade e voltar até aquele ponto no meio do Aterro do Flamengo na outra pista. Ainda
faltavam uns 6 Km para eu concluir a prova...
Comecei a sentir dor no dedão do pé direito, na raiz da unha. Logo depois, o do pé esquerdo também doía. Mais tarde, saberia que se tratava de uma
ocorrência comum para quem corre longas distâncias. Normalmente, as unhas ficam escuras e caem. Muitos corredores
freqüentes nem tem mais unhas... Seremos todos "desunhados", diria mais tarde a Denise. Naquele momento, só queria terminar a prova. Com ou sem unha, pensei...
Conforme eu ia pela pista de subida, notava uma multidão já voltando pelo outro
lado, prestes a cruzar a linha de chegada. Como existem pessoas que correm neste Rio de Janeiro, me surpreendia com o que via...Foi o trecho mais difícil. Fisicamente, eu estava me afastando do ponto final
enquanto corria em direção ao centro da cidade. Psicologicamente, era um esforço que ao invés de diminuir, aumentava a distância até o meu objetivo. Preferiria não vê-los já voltando...
Quando fiz o retorno nas imediações da avenida Rio Branco, me confortei com novo ânimo: agora é só uma "reta"... 3 Km, mas é "só uma reta"...
Tentei em vão reconhecer alguém dentre os milhares que vinham ainda do outro lado... Mais um posto de água. Essa vai ser com prazer dobrado. Estou quase chegando... Aumentei o volume do walkman, buscando mais
empolgação. Observei a elevação da freqüência do meu pulso. Estava disposto a
correr, correr, correr, quase em transe apesar de tomar cuidado para não ultra-passar meus limites. Limites que eu ainda não conhecia...
Abri os braços feito criança brincando de aviãozinho... Corria, corria, corria ou será que voava? A cada passada, uma alegria: espaço aberto em frente... Ideal em frente... Queria um som especial para a minha chegada... Seria um orgasmo alcançá-la com trilha sonora magnífica... Percorri o repertório de músicas gravadas no walkman, para ouvir Arial do System of a Down... Puro rock êxtase... 190 bpm... Não iria forçar mais que isto...
Espectadores tiravam fotos, acenavam para seus conhecidos e parentes que completavam o percurso, vitoriosos, exaustos... Vibravam com o seus feitos... Olhei para todos os cantos, procurando um rosto familiar... Queria encontrar alguém, gritar, sorrir, pular, dançar, compartilhar o que estava sentindo...
Já avistava a linha de chegada. Não via ninguém conhecido. Dei um tímido tchau, levantando a mão direita para a multidão. Por certo ninguém desconfiaria que eu não estava reconhecendo ninguém, que não estava vendo ninguém em particular, um amigo, um parente, mulher, família, filhos... Somente desconhecidos...
Mas estes mesmos desconhecidos eram tudo que eu tinha. Então, eles
precisavam me ser úteis, me serviriam de platéia. Aquele era o meu show. Não havia ninguém. Não queria passar aquele momento sozinho... Ilusão que me confortava... Música alta, muito alta em meus ouvidos... O suficiente para causar arrepios múltiplos... Agradeci a cada célula do meu corpo pela aquela vitória... Abri os braços triunfante para cruzar a faixa final...
Créditos:
Texto © 2004 por Mario S. Freire
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