Atletismo e Saúde

Circuito nacional de corridas em montanha - 2a etapa - Extrema

João Valentim conta a emoção e dificuldades de participar dos 24km da prova mais difícil do circuito de corridas de montanha.



Extrema, 12.05.07, 18:00 - Já estava totalmente escuro quando largamos. Os primeiros 1000 metros de prova foram pelas ruas da cidade. Uma apresentação dos aproximadamente 150 atletas para o público. Em seguida, tomamos a direção da serra. Eu, participando pela primeira vez desta prova, nem de longe imaginava as emoções que me aguardavam para as próximas horas. O Vander (meu companheiro de corrida categoria 20 a 24 anos), por ter participado da prova no ano passado, estava mais tranqüilo. Eu por não saber o que me aguardava, procurei ficar mais sobre o meio dos atletas. Estava me poupando pois sabia que ia precisar de muita energia para o final.

Já no km 3, encontrei atletas caminhando. Uma subida em curva insuportável. Mas seguindo orientações do Vander, que me dizia: evite caminhar, corra.. corra nos locais onde tem condições, pois vai chegar em certos pontos da trilha que são impossíveis de correr. Então ganhe tempo onde dá pra correr. Seguindo sua orientação mantive um ritmo leve, mas correndo sempre. Nessa altura o Vander já tinha sumido dentro da serra. Passo pelo primeiro Ponto de Controle, pego um copo de água e sigo em frente. De repente um outro corredor, a uns 50 metros a minha frente grita: cobra a esquerda…Imediatamente focalizei minhas lanternas naquela direção e realmente lá estava ela.. Só nos observando. Deveria estar imaginando quem são esses malucos que estão atrapalhando meu passeio noturno. Ninguém ousou a agredi-la, pois éramos nós os invasores. Susto passado,sigo em frente, sempre correndo.

O tempo ajudou bastante, pois não estava tão frio como esperávamos. Levava na minha mochila, 3 barras de cereal, 01 carbogel, uma toalha, uns trecos de primeiros socorros e meu celular para uma emergência mais séria. A noite estava totalmente estrelada, mas sem a presença da lua, então dentro da mata o breu era total fora do alcance das lanternas. Levava comigo uma lanterna de 8 led’s na cabeça e uma de mão de 12 led’s. Nunca imaginei que apenas 3 pilhas palitos, fossem capazes de iluminar tanto e por muitas horas.

Já fazia aproximadamente uma hora que eu estava dentro da trilha na mata fechada. Só subindo. Realmente havia pontos que era impossível correr. Passo por cima de pedras enormes, árvores caídas e riacho. Sempre seguindo os pontos marcados na trilha. Naquele momento estava completamente sozinho. Ninguém à minha frente e os retardatários tinham ficado para trás. Meu maior medo era me perder .Sigo em frente, sempre correndo. Ainda dentro da mata, percebo a aproximação de outros corredores, fiquei mais tranqüilo. Meu frequencímetro marcava nessa hora 160 bpm e 01:44 min de prova.

Como teve pontos que fomos obrigados a caminhar deu para conversar com outros atletas. Foi quando se aproximou de mim um atleta de SP, falando que sua lanterna tinha quebrado e estava ficando sem iluminação. Eu estava prevenido, além de ter levado duas lanternas ainda tinha uma carga de pilhas de reserva, mas infelizmente o tamanho não serviu para a lanterna dele, então passou a correr sob a iluminação das minhas. Ele corria pela categoria de 50 a 54 anos. Aqui abro um parênteses para falar sobre a idade dos atletas. Na minha categoria éramos 23 atletas (40/44). Percebe-se que nesse tipo de prova, onde conta mais a resistência do que velocidade, a grande maioria dos atletas eram com idade acima dos 35 anos. Voltando a prova, pensei comigo: este cara (muito gente boa por sinal) vai atrasar minha vida, pois meu ritmo naquele momento era mais forte do que o dele. Então emprestei minha lanterna de mão e fui para frente.

Caí numa estrada de terra no meio da serra, e logo mais um outro posto de controle. Água, que alívio.. Tava sentindo muita sede. Nesta estrada, teve algumas descidas dentro da serra, então deu para relaxar o corpo e recompor as energias. Nessa altura estava no km 16 da prova, e nem de longe imaginava o que me esperava nos próximos km . Pelo contrário, achava que o pior já tinha passado. 

Segui a estrada de terra que levava em direção a outra montanha, já com início de subidas. Passo pelo posto de alimentação. Nem parei, pois queria recuperar posições que havia perdido na trilha da mata. Correndo sempre, passo por mata-burro (maior perigo naquela escuridão). Me deparei com uma porteira e um staff, indicando para subir beirando a cerca em direção a um pasto. Sempre subindo, me deparo com um morro de aproximadamente 800 metros. Nessa hora mais quatro atletas que estavam perdidos em outra trilha se juntam a mim. Eles reclamavam muito da sinalização. Olhando para cima dava para ver as lanternas de outros atletas lá em cima, sumindo na escuridão. Não é a toa que esta trilha leva o nome de ” pasto da morte”. Só para resumir.

Levamos mais de 30 min para avançarmos cerca de 800 metros sobre a serra. Não tinha como ficar em pé. Literalmente nos arrastávamos sobre a trilha. Com câimbras vários atletas iam parando. Esta parte foi a mais terrível para mim, e também acho que para todos.Cheguei a perder o controle sobre mim por alguns segundos: meu Deus o que estou fazendo aqui!!! Meu frequencímetro apontava 185 bpm, 02:30 min de prova. Estava além do meu limite. Respiro fundo e volto a subir, sempre me arrastando pela encosta. A esta altura minha roupa estava totalmente molhada pelo suor, e também pelo capim molhado onde estávamos nos arrastando. Como a noite não estava tão fria, estava correndo com uma camiseta de manga longa e uma regata por cima. Bermuda térmica, panturrilheiras e uma meia bem grossa. Meu tênis era apropriado para trilhas. Foi o que me ajudou bastante, pois onde outros atletas ficavam escorregando eu passava sem maiores problemas. Enfim após 30 min, estávamos finalmente na parte mais alta da montanha. Dava para ver tudo lá de cima. A cidade lá longe toda iluminada, parecia que silenciosamente nos aguardava. Uma visão maravilhosa, mas como estava correndo contra o tempo, não parei.

Agora entra aquele velho ditado: tudo que sobe desce. Então fui descendo... Correndo com certa cautela e chego ao último posto de água. Abasteço e continuo correndo numa estrada de terra com muitas curvas dentro da mata. Absolutamente sozinho a esta hora, ficava atento nas sinalizações para confirmar se estava no caminho certo. Lembram da largada? Pois é.. Foi uma descida enorme. É... Mas agora teria que subir tudo e isso me preocupava. E olha que eu ainda estava dentro da serra.

Estava feliz. Muito feliz por estar completando a prova de corridas de montanha, considerada a mais difícil do Brasil. Não estava preocupado em qual posição iria chegar. Éramos aproximadamente 150 corredores e pelos meus cálculos deveria ter à minha frente uns 40, mas isso não me importava. A satisfação de concluir uma prova dessas é indescretível. Só vivendo isso para saber. Seu estado físico e psicológico no limite. A esta hora você ja está pedindo por um milagre Divino. 

A esta altura o Vander já havia chegado. Tinha me falado no início: vou completar a prova e volto para te esperar na entrada da cidade. Dito e feito. Ao entrar na periferia de Extrema, não só ele, mas também duas viaturas da PM me aguardavam e me escoltariam até a chegada. Mesmo correndo e com as pernas quase de arrasto, apanho o celular e ligo para minha namorada Débora: prepare a câmera, estou chegando…

Com a presença do Vander, correndo ao meu lado, impondo um ritmo mais forte, busco o resto de forças para enfrentar a subida final. Com 03:30:56 segundos, cruzo a linha de chegada, ficando na trigésima oitava posição no geral e nono na minha categoria. Estava muito feliz, pois tinha completado os 24km da prova mais difícil do circuito de corridas de montanha.

Obrigado meu Deus... Obrigado a minha namorada pelo incentivo. Obrigado ao Vander pelo companheirismo. Obrigado a Carol e o Marcelo da Academia Oficina do Corpo pela minha preparação física. Obrigado a galera da loja, pelo apoio nos dias que antecederam a prova. Obrigado ao Fábio e sua equipe, pelo profissionalismo e respeito com que trata os atletas. Obrigado a mãe Natureza por ter me dado este privilégio. Foram 24 km, 03:30 minutos de prova, que elevaram meu estado de ser.

**** O Vander completou a prova com 02:38 min.ficando em sexto
no Geral e primeiro lugar em sua categoria.*****

João Valentim



Créditos:
Texto © 2007 João Valentim

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