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A Rússia é um choque. O país que já foi a segunda maior potência do planeta é hoje tão terceiro-mundo quanto nós. Em alguns aspectos, até pior. No aeroporto internacional de São Petersburgo, tida como capital cultural do país, a moça do guichê de informações turísticas engrola o inglês para dizer que não dá para explicar onde fica meu hotel, que há transporte público, mas é complicado e que o melhor é tomar um táxi, que ela não tem idéia de quanto pode custar.
Logo fora do aeroporto, um sujeito de paletó, com enorme crachá na lapela dando-lhe ares de respeitabilidade, sabe exatamente quanto custará, apresenta as opções em frases completas e inteligíveis e nos coloca no táxi mais caro de toda a viagem. É um Mercedes velho, sem taxímetro e com um motorista que supostamente sabe aonde vamos.
Se não sabe, tem muita confiança, pois enfia o pé naquele acelerador com um ardor... Imagens de máfia russa, acidentes terríveis num país estranho, hospitais lotados e fedorentos, sistema telefônico impossível povoam a nossa mente.
Mas chegamos, Eleonora e eu, ao hotel, que é bem localizado e bastante razoável. Depois de instalados, tratamos de correr para o local de inscrição na prova, a White Nights Marathon, evento que inclui maratona, 10 K _a prova que vou correr_ e uma corrida familiar de 5 km. A recepcionista do hotel se embanana um pouco com os mapas, embaralhando-se entre os caracteres cirílicos e a transliteração dos nomes de ruas em russo para os caracteres ocidentais, mas acabamos conseguindo uma indicação razoável de como chegar ao local.
Faltavam dez para as oito quando finalmente entramos no quarteirão da Secretaria Municipal de Esportes (o nome é bem mais complicado), que fechava às oito. Saí correndo, achei o prédio cinzento, entrei num hall escuro, vi um guichê, duas moças estavam sendo atendidas pelo burocrata de plantão, mais ninguém à vista, nem um cartaz, placa, nada.
“Ferrou!”, já estava pensando, quando vejo um sujeito de calça de tergal e paletó descendo umas escadas apressado, rumo à saída, carregando uma enorme caixa de papelão em que apareciam uns impressos em que parecia haver a figura de um corredor.
“White Nights!”, berrei, e ele resmungou: “Uh, hu”, “váite” qualquer coisa e fez sinal para que o seguisse. Eu fui nessa, ainda falei “Registration”, e o sujeito “Uh, hu”, no maior jeito de furioso.
Quando saímos do prédio, a Eleonora estava chegando. Disse para ela que iríamos com o cara; ela estranhou, mas fomos em frente. Ele apontou para uma Kombi que um dia tinha sido branca, caindo aos pedaços, onde já estavam o motorista e uma russona, mais outras tantas caixas de papelão.
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O rio Neva, que foi cruzado várias vezes durante a prova
Foto © 2003 Rodolfo Lucena
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Entramos, meio desconfiados, mas, cada vez que eu dizia “White Nights”, o cara confirmava. E aproveitava para berrar ordens para o motorista, que parecia não saber exatamente para onde estávamos indo, mas sabia que tinha de ser rápido. A Kombi rangia e balançava pelas ruas tumultuadas de São Petersburgo. E a mulher procurava ser simpática, falando pelos cotovelos, mostrando seus
dentes de ouro. Eu respondia em português, porque de qualquer jeito ninguém ia se entender mesmo.
A certa altura, o sujeito berrou mais uma ordem para o motorista, que freou, parou, desligou. Não tinha outra alternativa mesmo, porque o trânsito estava absolutamente parado, em cena de filme humorístico: um cruzamento com carros vindo de quatro ruas e simplesmente sem espaço para seguir.
O sujeito desceu carregando a caixona, andando em marcha aceleradíssima, gritando para a russona nos ciceronear. Ela apertava o passo para não perder de vista o chefe, pois parecia não saber direito aonde iríamos. Nós seguíamos o circo.
O cara dobrou uma esquina, a mulher entrou por um portão, nós a seguimos, o cara não tinha ido por ali, voltamos, o cara aparece berrando para a fulana, Nádia. Finalmente entramos num outro prédio e ali, sim, mesas improvisadas como guichês, cartazes, camisetas atiradas num canto, gente de abrigo esportivo, tudo montava um ambiente de organização de alguma coisa. Tomara que fosse a corrida.
Era. Entre engrolações de inglês e gestos, eles me orientaram a fazer o registro, tudo em papel, pegar meu número, uma camiseta muito ruim, com propaganda em inglês de uma empresa coreana e sem ao menos o nome da prova, um boné bem arrumadinho, comemorativo dos 300 anos da cidade e seguir para falar com o chefe.
O diretor da prova articulava melhor o inglês, entendeu meu nome e fez a transliteração para caracteres cirílicos, repetiu umas tantas vezes o horário e o local da prova, desenhou um mapa do que eu deveria fazer e me orientou sobre o que era preciso para entrar no brete para a largada, no dia seguinte, 21 de junho, às cinco da tarde, na praça Dvortsovaya.
Ela foi cenário de alguns dos mais importantes fatos da história moderna. Seu ponto central é a Coluna da Vitória, o obelisco em homenagem ao czar Alexandre 1º, que derrotou em 1812, com o general Inverno, as tropas de Napoleão. Lá também pulsa o sangue de dezenas de homens e mulheres que pediam trabalho e pão e levaram tiro e baioneta das tropas czaristas em 1905, no Domingo Sangrento.
Em frente à praça, fica o complexo do Hermitage, o maior e mais importante museu do mundo, onde entrei com a Eleonora lá pelas 14h do domingo, depois de um tempão em uma fila, sob frio e chuva, e de uma certa confusão para comprar ingresso e largar os casacões e câmeras.
Antes de percorrer as salas repletas de objetos de arte, móveis e badulaques (com o perdão da má palavra) históricos em geral, tratamos de alimentar o espírito com um sanduba dos bão na lanchonete do museu, que _surpresa!_ aceitava cartão de crédito, caso raríssimo na Rússia.
Sala vai, sala vem, pinturas e objetos de imperadores para cá e para lá, reverências religiosas em todo o canto, e nada dos registros da história comunista. Até que, numa sala toda enfeitada, uma pequena placa informava que ali estava reunido o Governo Provisório na tarde de 7 de novembro de 1917 (para nós, 25 de outubro), quando o Palácio de Inverno foi invadido pelo Exército Vermelho; os membros do poder deposto foram presos na sala de jantar, ao lado daquela em que estávamos.
Deu até arrepio. E raiva de ver como, em um museu que supostamente devia preservar a história, a história estava escondida.
A essa altura, o som que vinha da rua me chamava às janelas cada vez mais repetidamente. Lá embaixo, uma saudável confusão. Num canto da praça, um enorme palco armado para grupos jovens mandarem ver no rock pesado ou sei lá o quê. Mais próximo da entrada do Hermitage, um campo de futebol improvisado sediava uma partida virilmente disputada, ainda sob chuva, por times devidamente uniformizados, aplaudidos por um pessoal que se espremia junto das cordas que delimitavam o “gramado”. E, sob a Coluna da Vitória, um grupo de corredores já se organizava no brete, perto do pórtico inflável da largada, onde estava escrita a palavra Start em letras letras russas.
Louco para largar, já estava ficando indócil no partidor. Mas ainda circulamos um tanto pelo museu. Quando saímos, foi só o tempo de trocar de roupa, tirar umas fotos e entrar no brete. Tinha de entregar uma senha para um sujeito da organização e passar pelo pórtico de largada. Assim, como fui um dos últimos a entrar, fiquei praticamente com o peito na fita, como se diz.
Logo o chefão do pedaço começou um discurso em que citou a internacionalidade da prova, nomeando os países representados, inclusive o Brasil, e foi dada a largada!
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Rodolfo durante a prova
Foto © 2003 Eleonora de Lucena
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Como eu estava na frente, tive de abrir a passada para não ser atropelado, apesar da ampla área de partida, logo entrando em avenidas superlargas, parcialmente fechadas para o tráfego.
Os corredores eram sérios. Havia só um ou outro fantasiado e uns fulanos folclóricos, como um senhor de provavelmente mais de 60 anos, careca, enorme barba branca, gordão, que corria descalço e sem camisa, mostrando o peito cheio de caroços enormes. Aquilo devia ser algum tipo de doença, mas o fato não o impedia de correr forte, pois ele logo desapareceu de minha vista (chegou uns cinco minutos antes de mim).
Apesar da falta de marcação de quilômetros, eu imaginava estar fazendo um pouco menos de seis minutos por km, o que estava ate forte, porque previa fazer entre 55 minutos e 70 minutos, considerando que ainda estava nos trabalhos de recuperação da
hérnia.
Mas, sei lá, o frio, a chuva, o clima de corrida, tudo fazia com que eu procurasse manter o ritmo, acelerar até, subindo de patamar pouco a pouco, mas sem correr. Eu ia me dizendo que o Wagner (meu ortopedista) ia reclamar, o Claudio ia falar, daí dava uma baixada, mas logo voltava.
A gente passava por prédios históricos, cruzava pontes, tudo plano. Numa ponte, um sujeito desabou. Quando passei, ele estava espatifado no chão, de corpo inteiro e rosto no asfalto. Todos seguíamos, não havia o que fazer, e logo ouvimos a sirene da ambulância.
Passou, eu entrei na minha. Lá pelo km 3 e pouco, começou a diminuir o número de pessoas que me passavam, aumentavam minhas ultrapassagens, eu fui entrando em alfa só com o silêncio e o som da corrida. De um lado, prediões centenários; do outro, o rio Neva, suas águas escuras e sua história. E o tum-tum-tumtum das nossas passadas, ritmo, ritmo, ritmo é tudo, velocidade não é nada.
No km 5, única marcação que vi, estava com 26min32 e achei que, se forçasse, daria até para tentar quebrar meu recorde pessoal (49min40, acho, na Festa do Corredor, em 1998). Apertei o passo por mais uns tantos minutos, mas senti um pouco as costas, fiquei com medo de dar gás e não ter para manter, resolvi obedecer ao meu ritmo.
A partir do momento em que se partiram as rotas dos maratonistas e dos corredores de 10 km, a coisa ficou malparada. Faltavam uns dois quilômetros e pouco, imaginava eu a ausência de marcação era irritante, desconcertante, e parecia que as colocações estavam mais ou menos definidas. Eu não conseguia chegar perto dos que estavam na minha frente e ninguém chegava perto de mim.
Em mais uma ponte sobre o Neva, falei que não ia dar, mas tentei chegar nos três fulanos que estavam lá pelo meio da ponte. Antes do final dela, já tinha passado dos caras, sem sentir forçar, sem que as costas reclamassem.
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Festejando o bom tempo conseguido na prova; ao fundo, a coluna da Vitória (ou coluna de Alexandre)
Foto © 2003 Eleonora de Lucena
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Vinha uma reta de um quilômetro e meio, talvez, depois mais uns 300 metros, calculava, e então seria o abraço.
Ficava no ritmo, chegava no sujeito da frente, ajustava o ritmo, acelerava pouquinha coisa, encostava em mais um, e assim fui. Mais à frente, um garoto ia passando todo mundo, me desafiei a chegar junto, sempre na mesma balada.
Não é que deu? A partir do Hermitage, passamos a rodar juntos, ele não afinou, eu me disse que não ia tentar passar, só ficar no ritmo já estava bom, e assim
fomos. Passamos um monte de gente e, no meio da reta final, ele abriu, eu fiquei na minha, nem tentei seguir, não dava para acompanhar.
Mas vi a chegada, abri ainda um pouco a passada, entrei no brete, vi a Eleonora, que estava lá, firme, forte e linda, e cruzei a linha de chegada.
50min07 foi o tempo oficial, minha melhor marca desde 1998. Bebi a água, que foi a única medalha que recebemos, e festejei com a Eleonora e com um berro enorme na praça da Vitória. A minha.
Fim
Nota:
A participação na corrida em São Petersburgo fez parte do retorno gradual de Rodolfo às corridas, depois de uma hérnia de disco; o tratamento é coordenado pelo ortopedista Wagner Castropil, do Instituto Vita
( www.institutovita.com.br
) ; os trabalhos de força são orientados pelo professor de musculação
Ronaldo Pereira Silva
Créditos:
Texto copyright © 2003 por Rodolfo
Lucena.
Confira esse e outros relatos do Rodolfo Lucena em seu site Corrida
Viking.
Rodolfo Lucena é editor do blog +
corrida e autor do livro Maratonando.
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