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No regulamento da BR 135 Ultra,constava que cada atleta no período noturno
poderia contar com pacers,que serviria como orientador para que se
minimizasse o risco de se perder durante a corrida no período noturno,contudo esse atleta não poderia de forma alguma ajudar o atleta em
nada,apenas serviria como um acompanhante e correria com suas próprias coisas,mas poderia correr com um cajado pra se defender e defender também o
atleta de algum animal durante a noite.
O pacer é um atleta que não compete na prova e serve também para ajudar a marcar o ritmo do corredor,e eu estava lá em Águas da
Prata, Minas Gerais,ponto de partida da BR135 Ultra exatamente para isso, eu seria o pacer
noturno da atleta Mônica Otero, a única mulher na prova, e eu estava contente com isso.Só de poder estar ali no ambiente da prova eu já me dava por
satisfeito, já que inicialmente meu currículo não tinha sido aprovado correr essa prova,talvez porque eu tenha pouca experiência nesse tipo de corrida e
seja praticante de corridas de rua há apenas 3 anos.Mas estando como pacer nessa edição as minhas chances de ser selecionado para edições seguintes
seriam grandes,por esse e por outros motivos aceitei o convite da Mônica para essa função.
Mas aconteceu que alguns atletas selecionados tinham desistido ou se contundido na véspera da prova e não poderiam mais correr,
abrindo-se assim algumas vagas pra corrida, e o diretor da prova Mário Lacerda junto com a sua equipe de organização da prova analisando mais a
fundo mais uma vez o meu currículo decidiram que eu tinha condições de correr a prova e me fizeram o convite para correr a prova a poucas horas da
largada.
Ora,
você sair pra uma prova de 10 quilômetros sem estar totalmente preparado é uma
coisa, agora 217 quilômetros em terreno de montanha
acidentado onde prevalecem subidas é outra completamente diferente, mas eu pensava comigo que outra chance como aquela de correr entre os melhores
ultra-maratonistas do Brasil e do mundo não apareceria tão cedo, mas também pensava nas dificuldades que eu iria passar por não ter treinado para essa
prova especificamente. Eu até estava em treinamento para uma prova longa,
estava me preparando para correr a Supermaratona da cidade de Rio Grande no Rio Grande do
Sul, uma prova longa completamente diferente desta. Em Rio Grande a prova é de 50 quilômetros totalmente
planos, ou seja, eu não estava com o treinamento de subidas em dia, mas enfim,
aceitei o convite mas pedi pra largar e correr até aonde eu visse que daria pra imprimir um bom
ritmo, ou talvez ser o "coelho" da prova e manter na frente até aonde pudesse.
Inicialmente eu pensava em correr até a cidade de Inconfidentes, distante 113 quilômetros da
largada, e de lá pegar um ônibus e voltar para casa. Mas conforme o clima da prova ia se
aquecendo, todos os atletas chegando, aquela expectativa toda, a minha vontade de fazer a prova
por completo ia aumentando também, e eu via chegar os grandes atletas que eu conhecia apenas das revistas ou de apenas ouvir
falar, e isso me incentivava a entrar na prova pra correr com eles, e pouco antes do congresso técnico
começar cheguei no Mário e na Márcia e contei pra eles sobre a minha vontade de correr a prova
toda, aceitaria o convite e queria correr inscrito como atleta, isso se a Márcia não se importasse em perder o pacer dela que
inicialmente seria eu, e pra minha sorte ela disse que não se importava, que preferia mesmo é que eu corresse a prova como
atleta, e que apostava e mim e que tinha certeza de que eu conseguiria terminar a
prova, ou seja, deu toda a força para que eu corresse também.
Começou o congresso técnico,e ouvimos e vimos todas as instruções por parte
da organização e depois as apresentações dos atletas e tudo mais. Pronto, já
estava decidido, eu iria correr a prova e estava decidido, já recebera até o meu número de
peito, número 11. A partir dali eu não pensava mais em outra coisa a não ser na
prova, faltavam menos de 24 horas para largada e eu não tinha plano nem tática
nenhuma, e o pior, como eu não iria correr a prova como atleta, não tinha também parte dos equipamentos obrigatórios para a
corrida, ou seja, a corrida começou ali mesmo para mim, correr atrás disso e daquilo
outro. Enfim, consegui com alguns amigos algumas coisas que eram necessárias pelo menos para
largar, mas mesmo assim eu iria correr na base do improviso, mas não ligava pra isso,s
ó o fato de poder estar ali já me animava, o resto eu iria resolvendo conforme as coisas fossem acontecendo.
Eu comecei a pensar num plano, numa estratégia para correr e tentar me sair o melhor possível durante essa prova que eu sabia que não seria nada fácil,
e ficava ali, pedindo ajuda e orientação de Deus. Eu não me considero uma pessoa
religiosa, mas confio e sempre confiei muito em Deus, e se Ele estava ali me dando aquela
oportunidade, colocando em meu caminho pessoas que estavam me ajudando e torcendo por
mim, não era em vão, com certeza Ele tinha um propósito pra mim, e eu confiava muito
nisso, por isso que decidi entrar na prova, e depois dessa decisão não me veio em nenhum momento à cabeça o
pensamento de desistir.
Preparei minha bolsa camelback com muita água,alguns doces e muito
carboidrato em pó que seria dissolvido em água durante o percurso da prova.
Tomei o cuidado também de levar uma capa de chuva, pois o tempo estava dando mostras que não demoraria muito pra
chover, e também levei mais uma camiseta e uma regata para não correr o risco de ter que correr com roupas
molhadas, o que fatalmente poderia me proporcionar uma hipotermia. Sai pra prova com uma bermuda
suplex, camisa manga longa e luvas. Nem me importei com o fato de eu ser o único atleta que estava com
luvas, me importava apenas em estar me sentindo bem, e não que eu seja supersticioso
ou
coisa assim, mas aquelas luvas sempre me acompanharam nas minhas ultra-maratonas mais
importantes, e daquela vez não seria diferente. Eram luvas de lã dessas comuns que se encontram em qualquer loja do
ramo, nada de especial, e eram vermelhas, o que acabava chamando um pouco mais a atenção,
mas enfim, como já falei o tempo estava pra chuva e eu julgava que elas iriam ajudar a manter as minhas mãos a ficarem um pouco mais aquecidas.
Oito horas da manhã e estávamos alinhados para a largada, e cada vez mais a chuva dava mostras que iria
cair, mas isso não me preocupava, pois estava preparado pra ela e no fundo eu torcia muito pra que isso
acontecesse, pois eu sabia que a maioria do percurso era em terra,e com chuva a coisa ficaria
mais difícil, o que era bom pra mim, não que eu seja algum tipo de corredor
masoquista, mas correr em provas de extremas dificuldades não seria muito segredo pra
mim, pois estava acostumado com coisas desse tipo durante o circuito brasileiro de corridas de
montanha, então pensava que quanto mais difícil a coisa fosse ficar, mais chances eu teria de conseguir
alguma chance de obter o meu objetivo que era o de ficar pelo menos entre os 8 primeiros
colocados, sim eu queria ficar entre os 8 primeiros, independente do tempo, essa era a minha meta nessa
corrida.
Depois de considerações
finais, votos de boa corrida e mais algumas instruções por parte da organização foi dada a
largada. Sai bem tranqüilo como sempre não me preocupando com os blocos que se formaram desde a
largada, pois os 6 primeiros quilômetros seriam feitos dentro da cidade de Águas da Prata com todos os atletas
juntos, e somente a partir da saída da cidade e do início do Caminho da Fé é que poderíamos imprimir o ritmo que
quiséssemos.
Pouco depois da largada a chuva começou, e veio com tudo, uma chuva forte que não dava sinas de que iria parar tão
cedo. Depois dos 6 primeiros quilômetros na parte urbana da cidade entramos no Caminho da Fé,
e aí sim a corrida iria começar de verdade.
Valmir Nunes e o Áureo
Adriano, campeão da edição do ano passado, já largaram com tudo, e em poucos minutos eu já nem os via na minha
frente, mas preferi manter um ritmo lento e confortável, afinal de contas estávamos apenas no
começo da prova. Fiquei acompanhando o mesmo ritmo do José Servello, um veterano que também tinha corrido a edição do ano passado,
e logo depois o Márcio Carioca nos acompanhara também. Eu julgava que correndo próximo ao
Servello poderia tomar proveito de alguma coisa, pois ele já tinha corrido uma edição da prova e conhecia bem o Caminho da Fé.
Pouco tempo depois Adílson José, o Ligeirinho passou por nós e começou a imprimir um bom
ritmo, não muito forte, mas constante, decidi então seguir junto com ele e deixei o Servello e Márcio pra trás.
Corremos juntos um bom tempo e logo percebemos a aproximação do meu companheiro de equipe Agnaldo Sampaio, um dos melhores ultra-maratonistas que eu conheço e já tive o prazer o correr
junto. Adílson apertou o passo percebendo a aproximação do Agnaldo e eu fui ficando pra trás,
e não demorou muito até que o Agnaldo me alcançasse. Ele encostou em mim e falou alguma coisa que eu não entendi direito e foi embora
bem decidido do que estava fazendo, e eu continuei ali no meu ritmo bem tranqüilo ouvindo uma boa música no meu
mp3. Pouco depois pude perceber que Agnaldo já tinha alcançado o Adílson e decidi apertar um pouco o ritmo e
acabei encostando um pouco neles, e nessa hora percebi um fato curioso, todos nós naquele bloco estávamos correndo com
mp3. Agnaldo apertou ainda mais o ritmo deixando-nos para trás e eu decidi acompanhar o Ligeirinho até aonde
pudesse, e por algum tempo desligamos nossos mp3 e fomos conversando sobre vários
assuntos, foi uma parte legal da corrida essa, parecia que estávamos em um treino longo e logo não víamos mais competidores no nosso campo de
visão, Agnaldo já tinha sumido na nossa frente, e a galera de trás tinha ficado bem pra trás, e nessa hora vi que eu estava num ritmo forte, e imaginei que poderia estar forçando demais pra um início de
ultra-maratona, e quando começou o primeiro grande desafio da prova, a subida do Pico do Gavião,
decidi diminuir um pouco o ritmo, até mesmo porque era uma grande subida, e eu sou
péssimo pra esse tipo de coisa, e pouco a pouco vi o Ligeirinho sumir na minha frente subindo muito bem a grande subida pro Pico do Gavião.
Corri por muito tempo sozinho e logo comecei a ver um a um os corredores que retornavam do Pico do Gavião.
Próximo a chegada ao Pico percebi que um corredor se aproximava de mim, e logo pude ver que quem me acompanhava era nada mais nada menos que Sérgio
Cordeiro. Nessa hora comecei a ver que a coisa estava ficando séria, eu estava sendo perseguido pelo campeão mundial de
ultra-triatlon, mas isso não me intimidava, já passei por esse tipo de situação em outras
ultra-maratonas, e continuei no meu ritmo. Ele veio comigo e não fez menção que iria me
ultrapassar, pelo contrário, veio seguindo ali o meu ritmo, e pra mim foi até
bom, e nesse ritmo fomos conversando e chegamos ao primeiro ponto de controle, estávamos
no quilômetro 23,7. Lá ele decidiu deixar a bolsa e pediu pra que deixassem no próximo ponto de apoio que lá
ele a pegaria de volta. Preparei um hidratante, peguei uma garrafa de água, um saquinho com algum dinheiro e o mapa da
prova, doces e alguns carboidratos em gel e coloquei na minha cintura e decidi fazer o mesmo que
ele, e rapidamente voltamos pra corrida, e agora seria a parte boa, a parte de descida do
Pico. Seriam 4 quilômetros de descida, nessa ocasião eu sou um pouco melhor que na
subida, e decidi que iria tomar a atitude de deixar o Sérgio pra trás.
Coloquei meu mp3 num volume um pouco mais alto e fui embora ladeira abaixo ouvindo Chico César,
mas sempre prestava atenção em ver a minha distância em relação ao Sérgio,
e pro meu alívio ele ficava cada vez mais pra trás, então outra vez me veio a preocupação de estar forçando muito o ritmo
no início da prova e gradativamente fui diminuindo o ritmo até acabar a descida do
Pico. De volta ao Caminho da Fé e a caminho da cidade de Andradas a chuva deu uma trégua,
mas Sérgio Cordeiro não, me alcançou novamente e dessa vez me ultrapassou e foi abrindo alguma diferença em relação a
mim, e por algum tempo eu decidi ficar naquele mesmo ritmo, mas depois percebi que ele
não apertava tanto assim o ritmo o que acabou deixando pouca diferença entre nós
dois, então comecei a ver que eu conseguiria acompanha-lo naquele ritmo e fui junto com ele por um
tempo.
Em algumas subidas fortes eu parava pra caminhar e ele abria uma certa diferença,
mas logo que aparecia uma descida eu voltava a acompanha-lo, e eu estava decidido a não deixa-lo escapar do meu
campo de visão, e fui nessa tática até uma descida de serra próximo a cidade
de Andradas e decidi tomar a iniciativa de apertar o ritmo na descida a fim de deixa-lo pra trás e quando as descidas começaram a ficar mais íngremes
coloquei em prática a minha tática e o ultrapassei-o e comecei a fazer as descidas num ritmo mais forte, e nesse ritmo um pouco mais forte comecei a avistar um pouco mais na frente o Ligeirinho que também notou a minha
aproximação.
Chegamos em Andradas e logo na entrada da cidade Ligeirinho fez uma parada pois a sua equipe de apoio o esperava para servir alguma
assistência pra ele. Parei no carro dele e pedi um pouco de água. Me serviram água e me ofereceram um pouco de coca-cola também.
Trocamos mais algumas palavras e eu prossegui na minha corrida. Cruzei a cidade de Andradas sobre o olhar curioso e surpreso dos moradores
da cidade. Parei em uma lanchonete perto da rodoviária e comprei uma garrafa
de água e continuei na corrida deixando pra trás a cidade de Andradas.
De volta as estradas de terra do Caminho da Fé a chuva voltou a me fazer companhia e o caminho começou a ficar cada vez mais complicado e difícil de
se correr, muito barro, muitos buracos e o pior, muitas subidas que por vezes tive que fazê-las
caminhando. Depois de algum tempo comecei a perceber que estava chegando perto da próxima
cidade, Serra dos Lima, onde estava o primeiro ponto de apoio, e eu me apressava pra chegar nessa
cidade, pois lá seria o meu almoço, e eu sabia que uma bela macarronada me
esperava, mas eu não contava que os poucos quilômetros que faltavam até lá seriam tão
difíceis, e para piorar a situação dessa vez a chuva começou a ficar ainda mais forte dificultando ainda mais a coisa.
Logo adiante passei por uma placa que avisava que os próximos 3 quilômetros seriam em subida íngreme,
e a chuva cada vez mais ficava mais forte, assim como a subida. Avistei uma grande árvore e embaixo dela decidi fazer uma
rápida parada para comer um ultimo doce de banana que restava dentro da minha
bermuda, pois a essa altura da corrida a fome já dava sinais que iria apertar também,
mas não perdi muito tempo e voltei a correr o mais rápido que conseguia pois queria chegar o quanto antes a Serra dos Lima para almoçar e
pegar de volta minha camelback onde estavam meus hidratantes pois eles já começavam a me fazer
falta.
Terminei a imensa subida com muita dificuldade e cheguei em Serra dos Lima, quilômetro
63,1, e cheguei com alguma dificuldade, e pra piorar, ao longe avistei o Ligeirinho se
aproximando, mas nessa hora esqueci fome e sede e voltei a correr um pouco mais rápido.
Enfim cheguei ao ponto de apoio que ficava em uma pousada de peregrinos, e rapidamente tomei
água e tirei a lama do meu tênis e fui ao tão esperado almoço. Uma deliciosa
macarronada me esperava, e não fiz cerimônias, comi bastante macarrão e quando
estava no segundo prato o Ligeirinho chegou e se serviu de coca-cola e água.
Perguntei sobre minha camelback e fui informado que ela não tinha sido deixada lá.
Nessa hora eu fiquei com medo, pois sem ela pra levar alguma coisa nos trechos mais longos a coisa poderia ficar mais difícil,
mas no calor da corrida nem liguei muito pra isso, queria prosseguir sem perder muito
tempo. Tomei duas latinhas de coca-cola e enchi mais uma garrafa com coca-cola pra tomar no caminho e outra com água.
Ligeirinho e eu conversamos um pouco sobre as dificuldades do percurso. Saí do ponto de apoio antes que
ele e fui seguindo na frente bem devagar e na primeira subida mais forte ele me alcançou.
A essa altura a chuva já tinha parado, e pelo que parecia de Serra dos Lima pra frente nem tinha
chovido, mas em contrapartida vários mosquitos nos incomodavam naquela parte do
percurso, acho que eram mutucas, e não davam trégua, vinham o tempo todo ao nosso
redor, e chegou a nos incomodar em muito.
Por um bom tempo mais uma vez seguíamos por um bom tempo conversando sobre várias
coisas, na verdade nem lembro direito sobre o que tanto conversávamos, mas íamos falando e dividindo água,
coca-cola e isotônicos que ele levava. Chegamos na cidade de Barra, mas eu me sentia um pouco cansado e decidi dar
uma diminuída no ritmo, nisso ele aproveitou pra dá uma escapada me deixando um pouco pra trás,
mas eu sempre o tinha no meu campo de visão, mas sabia que não conseguiria o acompanhar por muito
tempo.
Um pouco mais na frente vi um bar, e decidi parar para encher minha garrafa de água e
coca-cola, e quando parei o Ligeirinho estava lá tomando uma coca-cola, e assim que eu cheguei
ele já estava de saída, mas mesmo assim ele me fez a cordialidade de me deixar paga uma
coca-cola. Só nessa hora então percebi que tinha perdido o saquinho que estava o dinheiro e o mapa da prova que estavam dentro da minha
bermuda.
Ligeirinho não esperou nem eu o agradece-lo e voltou pra estrada. Despejei a coca-cola na minha garrafa e enchi a outra com
água. Alguns quilômetros depois comecei a me preocupar, pois agora eu estava com pouca água,
sem minha camelback e sem dinheiro nenhum, e pelas minhas contas a próxima cidade não estava a menos de 10 quilômetros de
distância, mas se eu fosse ficar pensando nisso talvez me desanimasse, então coloquei na minha cabeça que o negócio era chegar a próxima cidade o mais
rápido que eu pudesse, e graças a Deus essa parte do percurso não era tão difícil,
então consegui manter um bom ritmo, mas a chuva voltou a apertar e o
meu medo de uma hipotermia era uma realidade, pois mesmo eu estando com uma manga comprida eu estava sem capa de
chuva, tinha deixado ela dentro da camelback, ou seja, nessa hora eu tinha vários motivos para me preocupar com a
situação que estava passando, mas procurava não ligar muito pra isso,
procurava me preocupar em apenas me manter correndo, mas conforme o passar dos quilômetros a situação estava ficando cada vez mais difícil,
a coca-cola já tinha acabado e restava pouca água na garrafa.
Numa prova como essa por causa do terreno acidentado os quilômetros parecem ficar maiores do
que o normal, e pra mim naquele trecho estava sendo normal fazer cada 2 quilômetros perto da faixa dos 15
minutos, e com aquela chuva a corrida ficava cada vez mais lenta e tinham lugares em que eu não conseguia correr
com segurança porque o barro era muito liso, e eu não me arriscava, parava e andava sempre tentando pisar aonde me oferecia mais segurança,
e evitava ao máximo pisar na lama, não por frescura, nunca fui disso, mas é que o tênis que
eu corria, sem querer fazer propaganda nenhuma, um Asics Gel-Nimbus, tem um bom sistema frontal de ventilação com umas aberturas a mais que os
outros, mas esses buraquinhos que eram pra ventilação deixavam entrar lama pra dentro do
tênis causando uma péssima sensação nos pés, e por conta disso eu sempre tinha que fazer uma parada rápida pra tirar alguma coisa de dentro do
tênis, sendo assim eu concluí que definitivamente aquele tênis não tinha sido
feito pra se correr na lama, mas eu só tinha ele pra correr toda a prova, então era com ele que eu tinha que me
virar. Fora esse contra-tempo, achei ele um tênis excelente, não tenho do que
reclamar, pelo contrário, indico ele para qualquer corrida no asfalto,
inclusive maratonas.
A chuva deu uma diminuída e eu aproveitei para dá uma limpada por dentro do tênis e dei uma olhada nos meus pés pra ver como
estavam. Estava tudo certinho,até agora não tinha problema nenhum nós pés,
na verdade nunca tive em nenhuma prova, em todas as ultras que eu corri nunca tive sequer uma bolha
nos pés.
Cheguei em Crisólia, essa cidade estava na marca do quilômetro 85,7, e cheguei
totalmente sem água nas minhas garrafas, e na primeira casa que tive a oportunidade de ver alguém na porta parei e pedi água.
Uma senhora muito atenciosa encheu minhas garrafas e me desejou boa sorte,
agradeci e fui a procura do ponto de controle, cheguei e marquei minha passagem com o Henrique
que me indicou dois lugares aonde eu podia comer. Nisso ele me disse que minha camelback tinha
chegado, então tive um grande alívio, agora sim as coisas estavam melhorando pra
mim, e rapidamente fui até o bar da Zetti e pedi para que me preparassem 2 misto
quente. Enquanto preparavam o lanche eu troquei a camisa molhada por uma regata seca e preparei um hidratante e
tomei uma latinha de guaraná e coca-cola.
Recuperei forças pra tentar alcançar o Ligeirinho que pelas contas que eu fiz vendo a hora de saída dele
de Crisólia, deveria estar uns 10 minutos na minha frente e eu procurei não perder muito
tempo, comi um dos mistos e coloquei o outro na bolsa e me mandei pelas estradas do Caminho da Fé.
Esse trecho parecia não ser muito
difícil, e com a barriga cheia e hidratação na medida certa voltei a correr
bem, e a esperança de alcançar o Ligeirinho me fazia correr mais rápido. A chuva parou e a coisa parecia estar melhorando pra
mim, conseguia manter um bom ritmo e não demorou muito e eu estava nos arredores de Ouro
Fino.
Cheguei na cidade e ao atravessar uma rodovia fiz questão de cumprimentar o famoso
menino da porteira. Voltei a ouvir meu mp3, dessa vez estava ouvindo Ed Motta, e a música agora me dava um novo ânimo,
e assim cruzei a cidade de Ouro Fino sem parar pra nada, nem liguei pros moradores que igual aos das outras
cidades me olhavam com curiosidade, naquele momento eu estava no meu momento de
corrida, nada me importava, apenas correr e correr.
Na estrada a caminho de Inconfidentes comecei a perceber que teria que apertar ainda mais o
passo,pois estava sem lanterna,na verdade eu tentaria encontrar alguma pra comprar em
Inconfidentes, já que estava com minha bolsa de volta, e nela eu tinha algum dinheiro pra
isso, mas para tanto eu teria que chegar lá antes de anoitecer, o que parecia cada vez mais difícil,
pois cada vez estava escurecendo mais rápido, mas procurei não me preocupar tanto com
isso, e comecei a pensar nos meus amigos e família pra minimizar essa preocupação.
Pensei na minha família, no que eles poderiam estar fazendo naquele exato
momento. Durante a corrida eu pensava muito também no meu filho Jacques Éber de 1 ano e 9
meses, e pensava nas travessuras que ele poderia estar aprontando naquele exato
momento, pensava nos meus amigos que a essa hora já deviam estar sabendo que eu estava na corrida como
atleta, e imaginavam a loucura que eu deveria estar fazendo. Comecei a pensar no meu
treinador e amigo Juliano que talvez fosse me dá uma bronca quando soubesse que eu decidira correr aquela prova sem preparação nenhuma e na base do
improviso, mas também pensava em obter uma boa performance pra tentar minimizar essa
bronca, se bem que isso também não era algo ao qual eu deveria me preocupar
tanto, pois Juliano é um treinador muito gente boa e compreensivo, sempre me aconselhou a não fazer
"loucuras", mas também nunca me proibiu, então por isso talvez eu decidira correr essa
prova, e também queria dar o melhor de mim nessa prova para que depois ele e meu grande amigo Marçon
que também sempre me apoiou e me aconselhou em ultra-maratonas, tivessem o orgulho de falar que o garoto deles tinha corrido a BR 135
Ultra. E esses pensamentos cada vez mais me davam força.
As trevas se aproximavam cada vez mais e eu já estava cada vez mais com dificuldades de ver até as placas e
setas que indicavam o caminho, até que chegou uma hora que eu fui obrigado a parar de correr e apenas andar na escuridão,
mas graças a Deus por pouco tempo, pois eu finalmente eu chegara a cidade de
Inconfidentes. Pelas orientações do mapa que eu tinha o ponto de apoio era em um posto de gasolina na saída da
cidade, então atravessei toda a cidade de Inconfidentes, e nessa hora eu já me sentia bem cansado e com
fome, e pela primeira vez na prova eu sentia a necessidade de parar para
descansar, as pernas já não era mais as mesmas de horas atrás, mas eu não me entregava ao
cansaço, continuei firme por uma rodovia até encontrar o posto onde era o ponto de
apoio. Quando cheguei no ponto de apoio sabia que esse era o quilômetro 113,4,e dei de cara com o Agnaldo que já estava de saída
apressadamente, só deu tempo de nos cumprimentarmos rapidamente e ele se
foi. Dei um boa sorte pra ele e o vi sumir na escuridão com aquele jeitão meio doido dele.
"-Parabéns Éber!Você é o terceiro colocado na prova!" Foi assim que o Tião
Magú, massagista da prova me recebeu. Aí percebi que havia alguma coisa
errada, e perguntei sobre o Adílson Ligeirinho, e falei que até Crisólia ele estava na minha
frente, e que de lá até aonde estávamos eu não o tinha ultrapassado. Aí ele me informou que talvez ele tivesse se
perdido, pois a equipe de apoio dele também não tinha informações sobre ele.
Mas naquela hora eu não tinha cabeça pra muita coisa e fui direto comer.
Pedi duas coca-cola pra não variar e três garrafas de água. Nisso informei que precisava de uma
lanterna e recebi a péssima notícia que ali não tinha nenhuma de sobra e nem pra
vender, nesse momento imaginei que todo o meu esforço pra chegar ali tinha sido em vão.
Entrei em desespero e falei que iria desistir da prova pra ver se o pessoal da organização fazia alguma
coisa, mas não fizeram nada, o regulamento era claro, eles não poderiam me ajudar em
nada, e fiquei ali naquela correria, tentando conseguir uma lanterna e comendo a
macarronada. Todo mundo tentava me acalmar, mas sei lá, naquela hora juntou
tudo, cansaço com desespero e tudo mais, até que o Mário Lacerda o organizador
da prova chegou em mim e pediu pra eu me acalmar e comer primeiro, e depois pensasse com mais calma na minha decisão sobre abandonar a
prova.
Comi bem, matei a fome, e aí fiquei um pouco mais calmo, depois ele chegou em mim e
falou, "Está vendo, você estava com fome, já resolvemos um problema,
agora com mais calma vamos tentar resolver os outros. "Mário tinha toda razão,
naquele momento ele foi um anjo na minha vida, foi uma pessoa muito compreensiva
comigo, conversou bastante comigo e falou da experiência que ele tinha com ultra-maratonistas inclusive naquela situação em que eu me
encontrava, e me aconselhou a fazer o que eu deveria fazer, e no meio daquilo tudo um rapaz
apareceu e falou que poderia arrumar um lanterna em algum lugar mas que não tinha
pilhas, aí falei que eu arrumava as pilhas, que ele poderia ir busca-la, e não sei de onde arrumaram uma carona pra ele ir buscar a
lanterna, e naquela hora percebi que aquela galera toda estava era na torcida por
mim, não queriam que eu abandonasse a prova, e nisso o Tião me chamou pra tomar banho e depois uma
massagem.
Subi até um quarto e tomei um rápido e bom banho quente, mas sempre preocupado em não perder muito
tempo. Fui pra massagem e fui informado que a lanterna já tinha chegado, isso me acalmou
mais ainda e quando o Tião Magú terminou a massagem que eu me levantei da maca parecia que eu era um outro
atleta, aquela massagem tinha me recuperado totalmente, eu já estava pronto pra
prosseguir. Desci e comi mais um pouco, me aprontei e abastecei bem a camelback,
pois o próximo ponto de apoio só seria em Estiva, distante dali mais de 70 quilômetros,
e quando já estava pronto pra sair, tudo certinho a galera do posto me aplaudiu dando aquela força,
só então percebi a grande força que todo mundo estava me dando, e eu não poderia
decepcionar aquelas pessoas que a partir daquele davam mostras que estavam torcendo por
mim.
Ficou acertando então que eu levaria a lanterna e que depois o pessoal da organização a levaria de volta ao
dono, melhor, pois assim nem precisei compra-la, já que a grana estava bem
curta. Quando eu estava pronto pra sair que iria dá o primeiro passo, Mário me abraçou e falou que eu
estava me saindo muito bem na prova e que confiava em mim e que esperava me ver no outro dia lá em Paraisópolis.
Paraisópolis era a cidade onde era a chegada da prova e ele estaria lá me
esperando. Falei pra ele que no outro dia a tarde eu estaria lá para retribuir o abraço
dele, e me mandei na escuridão da rodovia que me levara de volta as estradas de terra do Caminho da Fé.
Borda da Mata seria a próxima cidade a ser vencida, e estava a pouco mais de 20 quilômetros a frente.
Corri muito tempo num ritmo confortável ao som de Tom Jobim no mp3. Apesar de estar correndo a noite numa estrada esburacada e desconhecida tudo ia bem
até a chuva voltar. Era uma chuva fraca, mas incomodava um pouco, mas durou pouco menos de uma
hora. O trecho começou a ficar difícil então comecei a intercalar trote e caminhada rápida,
a minha lanterna tinha uma luz fraca, não dava para ver muito bem o que vinha pela frente.
Cheguei em Borda da Mata tarde da noite, não vi ninguém na cidade. Numa praça
aproveitei a boa iluminação para preparar mais uma garrafa de hidratante e ver no mapa a distancia para a próxima cidade que era Tocos do Moji que
estava a exatamente 19 quilômetros a frente. Atravessei Borda da Mata e segui rumo a Tocos do
Moji. Depois de quase duas horas na estrada "minha" lanterna começou a dá mostras que não iria funcionar por muito
tempo. Numa parte desse trecho encontrei numa subida uma L200 atolada, e pela placa vi que era um dos
carros de apoio da prova, e uns 100 metros adiante estavam em uma casa o Rodrigo e a
Rita. Parei pra falar com eles e me disseram o que tinha acontecido, e Rodrigo me informou que Tocos do Moji deveria estar a uns 7
quilômetros a frente e que eu se eu pudesse chegando lá avisasse da situação
pra conseguir algum socorro pra eles.
Segui com a lanterna cada vez mais fraca, pior que eu nem podia apressar o
passo, pois esse trecho era bem difícil, com muito barro, buracos e muitas
subidas. Passei por uma pequena vila. Eram mais ou menos umas 3:30 da manhã.
Parei um pouco nessa vila e economizei um pouco da luz da lanterna. Na saída dessa vila uma grande
bifurcação, fui pela lógica e segui reto na parte maior da estrada, mas algum
tempo depois comecei a perceber que não via mais nenhuma sinalização de que estava no Caminho da Fé e comecei a suspeitar que tinha saído do
caminho.
Comecei a prestar mais atenção e finalmente decidi voltar a bifurcação depois de mais ou menos 2 quilômetros sem ver placas nem
sinalização. De volta a bifurcação decidi pegar a outra entrada e pouco tempo
depois vi uma seta, enfim estava no Caminho da Fé novamente. Depois de muitas
subidas, descidas e muito barro, cheguei a Tocos do Moji. Mais uma vez encontrei uma cidade
deserta, não vi ninguém nessa cidade também e chegando perto da igreja da cidade percebi uma mangueira em um posto de
gasolina. Avistei no posto o vigia e perguntei se podia tomar um pouco de água naquela
mangueira, e ele me deixou a vontade e começou a conversar comigo sobre que peregrinação eu estava
fazendo. Expliquei a situação pra ele, que estava numa corrida e que decidi correr durante a noite também,
aí ele me contou que se lembrou que a mais de uma hora tinha passado por lá com
muita pressa um rapaz que deveria estar na mesma corrida que eu estava. Disse que sim,com certeza era o
Agnaldo. Ele me contou entre outras coisas que já tinha feito o Caminho da Fé a partir Tocos do Moji duas
vezes, e que a partir de lá até Paraisópolis as dificuldades seriam
constantes. Em clima de humor falei que desde Águas da Prata as dificuldades estavam sendo
constantes. Abasteci a camelback e as garrafas com água, e aproveitei para mais uma vez lavar o tênis e fazer
hidratante. Antes de seguir avisei pra ele sobre o pessoal que estava isolado na estrada e que se ele pudesse avisar na
pousada do peregrino ajudaria muito. Ele falou que faria o que pudesse pra
ajudar.
Eu teria que economizar o hidratante a partir de Tocos do Moji, pois eu só tinha mais 2 saquinhos que dariam para fazer meio litro de isotônico
cada um. Pouco depois de sair de Tocos do Mogi a lanterna apagou de vez. Não tinha mais como continuar
correndo, estava muito escuro, então decidi andar até amanhecer, e isso não era tão
ruim, pois andando eu cansava menos.
Chegando em mais uma vila atravessei uma porteira com muita dificuldade, nessa hora a
coisa dificultou de vez, e além de tudo pois tinha umas sucessão de ruas e eu não sabia em qual entrar porque não tinha luz para tentar localizar as placas ou
setas. Mais uma vez fui pela lógica e arrisquei a que iria em direção a vila apesar de ser a mais
estreita, e por sorte acertei, peguei a rota certa e cheguei a vila. Descansei uns 10 minutos em um ponto de ônibus
na esperança de amanhecer rapidamente pois já estava perto das 5 da manhã.
Descansei um pouco e decidi que não esperaria amanhecer, peguei a estrada em total escuridão e torcendo para que desse tudo
certo.
Segui caminhando cada vez mais rápido. Depois de algum tempo começou a
amanhecer, e mais animação pra mim, e por isso voltei a trotar e quanto mais ficava claro
o meu caminho mais eu aumentava o ritmo do trote. Apesar de já ter amanhecido a situação voltou a ficar complicada pra mim pois uma sucessão de subidas e
descidas me esgotavam aos poucos. Mais a frente já perto de Estiva uma subida um pouco mais
forte, nessa tive que andar bem devagar e depois de muito tempo uma grande
descida, e decidi que depois dessa descida eu iria descansar um pouco, pois a subida tinha sido muito
forte. Parei em lugar que parecia ser um ponto de ônibus. Nesse momento umas 5 meninas passaram olhando pra mim e
achando estranho aquela cena anormal. Puxei conversa com elas, e como me deram atenção ficamos ali conversando um
pouco, eu falando da situação que me fez parar ali, e elas faziam perguntas do tipo se eu estava pagando alguma
promessa, se tinha mesmo corrido durante toda noite, de onde eu era, e é lógico,
se eu já tinha corrido a São Silvestre. Me falaram entre outras coisas que um pouco mais a frente ainda tinham algumas
subidas, mas me animaram falando que eu conseguiria vencê-las. Para agradecer a gentileza
delas, tirei minha camelback e ofereci pra elas alguns doces que eu levava
comigo. Não aceitaram,mas uma delas achou engraçado minhas luvas e falou que tinha
gostado principalmente da cor. Expliquei para ela, Simone, a história daquela luva e decidi deixar de lembrança com ela aquela luva e falei pra ela guardar de recordação ou até usa-las se
quisesse. Ela quase não acreditou e prontamente aceitou o presente. Nessa conversa toda já tinha até esquecido
que estava numa corrida, também, com aquelas meninas bonitas isso era natural,
mas retornei ao meu espírito da prova e fiz questão de dá um beijo em cada uma delas de
despedida.
Voltei pra corrida sobre os olhares dela até eu sumir por um curva e já começando mais uma
subida. Elas acabaram me dando uma animada, mas logo em frente outra grande subida me desanimou um pouco e
novamente andei bem devagar e demorei muito pra conseguir terminar essa subida,
mas quando acabei essa subida me deparei com uma paisagem que foi a mais bonita que já vi em toda a minha
vida. Era uma paisagem muito bonita, nem sei como explicar direito, mas via bem lá embaixo uma dessas paisagem rurais
de plantações em divisões, uma paisagem muito bonita, muito legal estar ali naquele momento curtindo aquilo e fazendo o que eu mais gosto na vida que é
correr. Fiquei ali por algum tempo apreciando aquela paisagem e me preparei para uma longa descida que vinha pela
frente. Desci sempre correndo, até mesmo porque a descida era bem íngreme, então aproveitei o embalo e desci num bom
ritmo o que chegou até incomodar a parte posterior das minhas coxas.
Depois de mais alguns quilômetros cheguei a cidade de Estiva onde eu sabia que tinha um ponto de apoio que era numa
padaria. Tomei um rápido café da manhã com biscoitos de polvilho, pão de queijo e café.
Abasteci minha bolsa com água gelada e coca-cola. Dessa vez dei uma reabastecida dobrada na
bolsa, não pretendia mais passar sede ou fome até Paraisópolis. Pude ver que a diferença
do Agnaldo pra mim tinha aumentado em muito, então seria muito difícil tentar chegar perto
dele, até mesmo porque eu perdi muito tempo caminhando sem luz durante boa parte da
noite, mas eu pensava em apertar o ritmo e fazer o que o meu amigo Marçon sempre me ensinou e eu sempre fiz nas minhas
ultra-maratonas, surpreender no final da prova, e eu iria lutar até o fim para
isso. Deixei Estiva que era a cidade que marcava o quilômetro 178,2, e num trote mais acelerado tentando colocar meu plano em prática de fazer uma
surpresa para o Agnaldo.
Muitos quilômetros depois na estrada um grupo de peregrinos fizeram festa quando me
viram, e ouvi um deles comentando entre eles, "Olha só,mais um
maratonista!" Ao ouvir isso pensei comigo, se eles falaram mais um é porque algum atleta passou por eles a algum
tempo, e isso me animou um pouco mais. O trecho começava a ficar cada vez mais difícil
novamente, mas eu sabia que a dificuldade seria para todos, inclusive para quem estava na
frente, e segui correndo até uma grande subida que depois de algum tempo o solo de chão batido dava lugar a
bloquetes.
Vencendo essa subida pude ver ao longe, muito longe, a cidade Estiva. No topo dessa subida parei e agradeci a Deus pela oportunidade que ele estava me dando de
estar ali naquela
hora, naquele momento e naquela situação. Segui ouvindo Marina Lima e pensando em várias
coisas, pensamentos positivos como sempre. Alguns quilômetros depois avistei a cidade de Consolação, a última cidade antes de Paraisópolis,
e isso me animou ainda mais. Chegando em Consolação num posto de
gasolina me abasteci de água e preparei meu último hidratante. Sem querer fazer propaganda
novamente, mas mais para esclarecer, o hidratante que tomei durante a prova é um suplemento da Nutrilatina chamado Glico-Dry,
um repositor de eletrólitos e carboidratos indicado para atividades de longa
duração, é um suplemento muito bom diga-se de passagem.
Parei na pousada do peregrino e pedi uma coca-cola e um desses salgadinhos de
criança. Perguntei se algum atleta tinha passado por lá e uma senhora me informou que ninguém tinha passado por
lá, então imaginei que quem estava na frente estava com tanta pressa que nem quis
parar. Sai pro último trecho da prova e estava decidido a correr o tempo
todo. Uma meia maratona me separava da chegada e isso me animava, nada mais me importava naquela
hora, naquela altura da corrida pra mim o mais importante era chegar,
chegar!
Depois de algumas subidas cruzo uma ponte e logo adiante uma placa anunciando que a próxima cidade do Caminho da Fé era
Paraisópolis, e que até lá faltavam 17 quilômetros, e nessa hora pude perceber que estava exatamente no quilômetro
200, ou seja, depois de alguns passos eu já teria conseguido a minha meta do ano de 2007 que era superar os 200 quilômetros em uma
prova. As subidas estavam sendo freqüentes nesse trecho, mas eu não
desanimava, não me importava com isso, naquele momento eu estava muito forte psicologicamente,
nada me incomodava, nada me importava, o importante era chegar,pois eu sabia que na chegada eu tinha um motivo para
sorrir, que era apenas o fato de ter chegado, e conforme eu via que vencia os quilômetros a chegada estava cada vez mais perto e isso me animava cada vez mais e eu ganhava forças com
isso.
Mais a frente muitas montanhas e a cada morro vencido eu imaginava ver ao longe a cidade de
Paraisópolis, mas isso não acontecia, conforme eu vencia os morros mais um vinha a
frente. Foram muitas subidas até ouvir o barulho de um motor de carro ao
longe. Conforme o barulho ia aumentando percebi que o carro vinha em direção contrária a minha e logo depois pude ver que era um dos carros de apoio da
prova, e logo que me viu o Rodrigo desceu e começou a filmar a paisagem e eu ao
longe. Perguntei se faltava muito até a cidade, e fui informado que ainda faltavam perto de 3 quilômetros,
e eu via a minha frente boas subidas ao longe ainda. Ele me entrevistou em plena corrida e depois seguiram na direção contrária
à minha. Falaram que iriam atrás do quarto colocado e voltariam. Só então tomei noção da situação,eu estava na terceira colocação e continuei correndo e dessa vez entoando cânticos e salmos em agradecimentos a Deus que me ajudou em tudo que eu precisava em toda a prova e em toda a minha
vida.
Mais uma subida e eu vi a cidade de Paraisópolis ao longe, faltava pouco.
Finalmente acabou a estrada de terra e começou uma grande descida de
paralelepípedo, procurei minhas ultimas forças e desci correndo bem tranqüilo com a sensação de dever
cumprido. Ao longe vi uma praça e umas fitas indicando a entrada para a praça e para a
chegada. Finalmente, depois de 30 horas e 19 minutos eu estava a menos de 200 metros da chegada e já ouvia palmas.
"Graças a Deus cheguei!" pensei comigo. Ao chegar na linha de chegada dei um grito e cruzei a linha de chega
falando "Obrigado Senhor, eu não tenho como agradecer!", e
cheguei, cheguei! Muita comemoração por parte de toda galera, era uma festa quando cada atleta
chegava, e comigo não foi diferente.
Recebi os parabéns de todos e fiquei muito contente pelo feito.
Depois de muitos abraços e parabéns por parte de todos que estavam na praça a espera dos
atletas, recebi os parabéns por parte da organização da prova e a tão esperada medalha.
Beijei minha medalha e dediquei ela e a corrida a todos que sempre confiaram e acreditaram em mim,e ao meu Deus que sempre esteve comigo.
Depois disso tudo, de ter tomado banho, almoçado e descansado, fui falar com o Mário Lacerda e avisei que entre Crisólia e Inconfidentes havia acontecido
alguma coisa que eu ainda não tinha entendido, pois eu saí de Crisólia na quarta colocação e cheguei a Inconfidentes na terceira colocação sem ter ultrapassado
ninguém. Ele falou que iria esperar os atletas chegarem e iria averiguar o que teria
acontecido. Horas mais tarde, já a noite ele me chamou para conversar e já sabia o que tinha
acontecido. Entre Crisólia e Ouro Fino o percurso da prova saia do Caminho da
Fé, e me perguntou se eu tinha seguido pelo Caminho da Fé. Falei para ele que
sim, que tinha continuado no caminho. Então chegamos a conclusão que eu tinha feito o trecho errado e passado o Ligeirinho nessa parte e que eu seria penalizado em uma hora por isso porque o erro tinha sido
involuntário, caso o contrário eu seria até desclassificado da prova.
Enfim, a atitude correta tinha sido tomada e fui penalizado porque errei o
caminho, mas foi um erro involuntário, tanto que o Henrique que estava em Crisólia também avisou ao Mário que quando iria me avisar da mudança de rota eu já tinha saído e já estava distante da cidade.
Com a uma hora a mais acrescido ao meu tempo final, perdi a terceira colocação para o Ligeirinho por apenas 9
minutos, mas nada mais justo do que isso pois paguei pelo erro que cometi,
e achei certa essa atitude, e se Deus quis que fosse assim, eu fiquei muito satisfeito por ter sido feita a vontade dEle e me senti um campeão com a quarta colocação.
Não me incomodei nem reclamei em nenhum momento pelo fato de alguns outro competidores não terem cumprido o regulamento da
prova, para mim o mais importante foi eu ter corrido toda a prova e ter retornado para minha casa minha consciência
tranqüila, como sempre. A minha recuperação pós ultra-maratona foi
tranqüila, e duas semanas depois já estava totalmente recuperado e já
trotando, e já estou muito bem, obrigado.
Tenho muito o que agradecer à Acrimet/Runtech que tem confiado em mim e me apoiado em todas as ultra-maratonas que eu tenho
disputado, também a equipe "Nossa Turma" que é a minha segunda família, a Ability Running Team que é a equipe da galera que me agüenta nos
treinamentos. Todos os meus amigos que sempre acreditaram em mim, meus familiares que apesar de não saberem nada sobre o que eu corro sempre estão torcendo por
mim. Agnaldo Sampaio (Ovelha), Patrícia Resende e família, Reginaldo Marçon e Marie Ota
(Sally), Marcos Sanches (Nossa Turma), Emerson Pestana da Oficina Academia,
Juliano Pereira meu amigo e treinador e toda a equipe da BR 135 Ultra,em especial Márcio Lacerda que foi fundamental para que eu corresse essa
prova, e a todos aqueles que acreditam que o amanhã pode e será bem melhor.
Eu não teria conseguido nada que consegui até hoje se não fosse pela ajuda dos meus grandes amigos e pela força que meu Deus me dá.
Então essa conquista não é minha,é de todos nós! E mais uma vez,muito obrigado Senhor!
Créditos:
Texto copyright © 2005 por Carlos Éber Valentim
Carlos Éber Valentim, quarto colocado na BR 135 Ultra é apoiado pela
Acrimet/Runtech e é treinado por Juliano Pereira da Ability Running Team de São Paulo.
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